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Coluna Divã da Autoestima

com Dra. Josiane Cândido - Psicóloga e Psicanalista

Revista Top Loba outubro/2018

A FORÇA DE VIDA COMO POSSIBILIDADE DE ENFRENTAR O CÂNCER DE MAMA

COM A VIDA DE NOVO...

O tema do movimento outubro Rosa 2018 "Câncer de mama: vamos falar sobre isso?" é muito significativo e nos remete à crescente necessidade de compartilhar informações sobre o câncer de mama, promover a conscientização sobre a doença, proporcionar maior acesso aos serviços de diagnóstico e de tratamento e contribuir para a redução da mortalidade.

 

O “vamos falar sobre isso” coloca em pauta, também, a grande necessidade de transpor os aspectos relacionados ao estigma e a dificuldade que as pessoas têm em falar sobre o câncer, de forma geral. 

 

É impossível falar da vida sem falar da morte e vice-versa. 

 

A descoberta do diagnóstico de câncer de mama é sempre impactante, pois o adoecer nos confronta com a angústia de deixarmos de existir, ameaça a auto-imagem corporal, as idealizações e a subjetividade. Traz à tona a irrefutável comprovação da nossa fragilidade e de que somos seres finitos, bem como o medo e a hipótese de destruição. 

Sendo assim, o anúncio desse diagnóstico, seguido pelos tratamentos, pode ocasionar abalos significativos na vida da mulher. 

Precisamos pensar caso a caso, quando se trata de adoecimento, pois a relação metafórica que cada pessoa estabelece com a doença faz diferença na condução do tratamento e na direção da cura. Contudo, o câncer de mama pode trazer simbolismos que afetem a mulher em sua relação com o feminino, pois envolve, na maioria das vezes, uma cirurgia mutiladora de um órgão (seio) que simboliza feminilidade, sexualidade e maternidade. A mulher com câncer de mama tem de lidar com o fato de um diagnóstico ponto de vista do câncer, mas também com a possibilidade de perda da mama e o prejuízo que isso trará à sua imagem corporal e à sua condição enquanto mulher. A mulher então, passa a ter o medo direcionado em dois focos: o medo do câncer propriamente dito e o medo da mutilação de um órgão que representa maternidade, estética e feminilidade. 

 

A mama feminina também tem representação social e cultural: por um lado, tem a função  do aleitamento e representação

da maternidade, por outro traz aspectos da sexualidade, como fonte de sedução ou prazer. 

A perda da mama pode significar para a mulher a perda da identidade feminina. A baixa autoestima e a preocupação com a modificação da imagem corporal podem interferir nas fantasias e a intimidade da mulher pode ficar comprometida.

 

É muito importante que esse momento seja vivenciado com acolhimento, diálogo, transparência, ética, conhecimento e compreensão. Essas mulheres necessitam falar e serem ouvidas em seus medos e temores.

Observa-se que medo é a tônica quando o desconhecido se avizinha e é justamente nesta hora que a solidão é mais cruel, é exatamente a hora que a fragilidade bate na porta. Nessa hora o suporte emocional é fundamental e vai impactar no tratamento como um todo. 

Trabalhar esse turbilhão de emoções, os medos e incertezas ajudam a mulher a atravessar esse momento tão difícil que as remete à perda do controle sobre a vida, mudanças na auto-imagem, medo da dependência, estigmas, medo do abandono, raiva, isolamento e medo da morte. O medo da progressão da doença e da recidiva também são preocupações constantes.

Porque além do desconforto físico há o desconforto psicológico (ansiedade, depressão e raiva) e as mudanças no padrão de vida (interrupção no casamento ou na vida sexual e nível de atividade alterado). 

Entender os medos e angústias podem interferir positivamente em uma resposta ao tratamento. Enquanto que ficar no silêncio pode trazer outros adoecimentos emocionais e falta de desejo de realizar suas atividades e até seu tratamento. 

O tratamento de uma paciente com câncer de mama deve ser conduzido por uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, enfermeiros, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional, respeitando a singularidade de cada mulher como: a idade, o momento de vida em que se encontra, os anseios e planejamentos, para que haja uma conduta correta e direcionada com o objetivo do reestabelecimento da saúde, em seu sentido mais amplo.

Além do apoio efetivo da equipe, a família é muito importante no processo de cuidado. 

A inserção da família favorece a aceitação da doença e a reabilitação.

 

Aspectos como estágio da vida em que a doença ocorre, estabilidade emocional e presença ou não de suporte interpessoal, influenciam no impacto que o câncer de mama e o seu tratamento irão causar para cada paciente. 

As reações de cada pessoa frente ao diagnóstico ou tratamento vão depender das características individuais e do tipo de estrutura psicológica ou de personalidade. 

 

A importância dada à doença e a forma de enfrentá-la vão impactar diretamente na resposta ao tratamento. 

 

A direção da cura deve caminhar na construção da aceitação de uma nova imagem corporal e da nova condição física.  Mas é um trabalho que exige esforço grande para o qual, muitas vezes, as mulheres não estão preparadas e por isso ela precisa de apoio da equipe multidisciplinar e da família. 

Entretanto, esse  trabalho precisa ser feito respeitando o ritmo e tempo de cada mulher.

É fundamental que essa mulher entenda que em alguns dias ela poderá estar triste, e pode até ser um efeito colateral do tratamento, mas outras vezes estará disposta a lutar pela vida e enfrentar as dificuldades que a doença impõe. 

Sendo assim, o suporte psicológico durante as fases de tratamento do câncer de mama é imprescindível. 

Esse suporte emocional propicia que ela coloque em palavras suas angústias e elabore  os acontecimentos de forma mais tranquila.  Com o lado emocional controlado, a condição de cura,  em sua totalidade, acaba sendo mais facilitada. 

Não só com o câncer de mama, mas com outras doenças também, o lado emocional está diretamente ligado ao processo do adoecimento. Quando há desmotivação e falta de desejo para enfrentar a doença o prognóstico fica, sem dúvida, prejudicado. 

Ter esperança é fundamental, é preciso ter esperança para empenhar-se em alguma coisa, até para viver. 

O apoio psicológico resgata a esperança, a força de vida e trabalha, principalmente com o foco da cura, quando existe essa possibilidade. Aponta para um novo olhar, não como vítima, mas como aquela que pode lutar, ter a possibilidade de reconstruir não só o seio, mas a vida.

Melhorar a autoestima, estabelecer estratégias de enfrentamento e a forma de lidar com os sintomas são efeitos de um acompanhamento psicológico efetivo. 

As pacientes começam a perceber que é preciso viver um dia de cada vez. As informações devem ser muito claras para as pacientes assim como as chances reais de cura. O medo da volta do câncer pode durar muito tempo, mas conforme a paciente vê a evolução do tratamento, esse sentimento diminui. Infelizmente, a palavra câncer ainda está associada à morte em nossa cultura, por isso, o trabalho terapêutico tem a função de desmistificar a doença e mostrar que a pessoa com câncer pode sim ter cura! 

Quando a paciente entende o seu próprio papel no adoecimento, percebe também que pode fazer uso de sua força para construir outras possibilidades e começar de novo, de uma nova maneira, mais fortalecida e contribuindo ativamente em seu processo de cura. 

“Você não pode controlar todos os eventos que acontecem com você, mas pode decidir não ser reduzido por eles.” 

Maya Angelou

 

Josiane Cândido 

Psicóloga e Psicanalista 

CRP 06/79404

Instagram: @josianecandido_psicologa 

E-mail: josianecan@hotmail.com 

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