Coluna Divã da Autoestima

com Dra. Francilene Torraca

Ascensão feminina e saúde mental

Muito se fala e comenta-se sobre a ascensão feminina no cenário profissional. Com o passar dos anos, o crescimento da mulher no mercado de trabalho está presente dentro das mais diversas profissões, trazendo, sem dúvida,  um aumento significativo no número de mulheres dentro da população economicamente ativa. A mulher ocupa hoje diversos cargos e funções de alta relevância em diversos setores, como  economia, comércio, saúde,  indústria e administração pública.

Apesar desta evolução ser muito bem vinda e gratificante, isto vem gerando um forte  aumento de sobrecarga de trabalho na vida das mulheres, sendo este, um dos fatores de  desequilíbrio entre a sua vida pessoal e profissional. Além da jornada de trabalho, a mulher conta com outros compromissos como a administração da casa e com a educação dos filhos.O atual papel da mulher na sociedade é o de múltipla funções e papéis. Gravita ao redor do universo feminino, a necessidade de ir correspondendo a todas as expectativas do seu entorno. Falamos também de expectativas internas: ser boa esposa, boa Mãe, boa funcionária, boa dona de casa e também, manter-se esteticamente dentro dos padrões de beleza, estabelecidos pela mídia. Não podemos deixar de falar que é cobrada também por estar sempre atualizada e competitiva. Desdobra-se para conquistar a ascensão profissional desejada e ainda precisa estar disponível para as tarefas domésticas e  na atenção aos filhos. Infelizmente, por muitas vezes, não recebe do companheiro o apoio e participação devida para que este crescimento profissional se dê de forma mais tranquila e confortável.

O cenário ainda permanece de muita sobrecarga, com muitos homens não assumindo um compartilhamento de funções e tarefas da estrutura  familiar. Fala-se pouco disso e deveríamos sempre expor publicamente que essa difícil conciliação de tarefas do lar, associado a necessidade de profissionalizar-se acarreta mudanças internas, psicológicas e externas, dentro de uma organização familiar.

Estudiosos acreditam que a multiplicidade de papéis sociais, traz consigo fatores estressores e pensam ser este um das razões de prejuízos no bem-estar psicológico.

Na cultura, no inconsciente coletivo ou popularmente falando no imaginário social, a mulher apresenta-se com uma certa fraqueza e com menos direitos. Num processo de quebra deste esteriótipo, partimos para a criação de um outro: o da mulher bem sucedida. Não resta dúvida, que este traz consigo a idéia de emancipação e igualdade e também a tarefa árdua de aparentar estar sempre sentindo-se forte e em condições de lidar com os desafios. Ocorre que neste cenário acumulamos mais tarefas produzindo maior estresse físico e mental, afinal não são só as tarefas profissionais que temos que administrar. As funções do lar, também estão lá, a nossa espera.

Nunca é demais comentar sobre os fatores geradores de doenças psíquicas e da preocupação que temos que ter conosco, com nossa saúde física e mental. A tripla jornada feminina pode sim, ocasionar sofrimento mental, sendo estes geradores de estados de tensão, ansiedades, medos, sintomas somáticos, e sinais marcantes de sofrimento mental como a Depressão.

Neste contexto, minha orientação é que nós, mulheres, deveríamos deixar de lado a resistência e procurar ajuda psicológica em caso de necessidade. Familiares e amigos, se perceberem que uma pessoa próxima a vocês, estejam em situação de vulnerabilidade emocional, que a encorajem a procurar ajuda profissional. Lutamos tanto por nossa emancipação, numa sociedade tão machista. Devemos fazer o mesmo para termos acesso com liberdade  aos espaços de tratamento e orientação em saúde mental, tendo nossas questões emocionais levadas a sério, sem preconceitos, ao invés de ouvirmos que é uma frescura de nossa parte.

 

Que tenhamos força para isto!