Rio de Janeiro, novembro de 2019.

 

"Aos 12 anos de idade, comecei a vender doces e salgados com mamãe no ano de 1991. Saíamos às 5 horas da manhã para dar inicio aos trabalhos na porta da fábrica de costura em que uma de minhas irmãs trabalhava. Eu era caçula de 06 irmãos biológicos e minha mãe ainda criou mais 04 agregados, éramos dez ao todo, já sendo dois falecidos. Estudava das 11h às 15h, sempre fui aluna aplicada e gostava de estudar.

Infelizmente meu nascimento não foi aceito pelo meu pai, que sempre externou isso. Logo, devido a uma fala lançada por ele, aos 13 anos (em 23/12/1992) acabei abandonando os estudos na antiga 7ª série, em setembro de 1993, embora com notas para passar para 8ª série, inclusive deixando de fazer o curso pré-militar e pré-técnico, o qual era pago com muito sacrifício com as vendas das guloseimas, pois meu sonho era ser marinheira. Mas diante da fala de papai, somado a outras mazelas da vida, nasceu uma menina destemida, que passou a falar mais, uma vez que era muito tímida e falava pouco. Nessas circunstâncias vi que a única forma de obter os utensílios que necessitava seria trabalhando, já que os mesmos eram negados pelo meu pai.

Vim de uma família de mulheres costureiras, gostava de fazer vestidos de boneca a mão, e sem medo de buscar o que queria, assim no inicio de 1994, diante da vida ocupada de minha mãe com o trabalho e com a vida espiritual intensa, já que ela era zeladora de um centro espírita, não se ausentando por motivo que não fosse saúde, sempre dizia que não tinha tempo para nada. Numa manhã, levantei cedo fui sozinha tirar minha carteira de trabalho (naquele tempo não precisava da assinatura dos pais) e ao retornar, voltei andando a pé uma distancia considerável, olhando para algumas casas belas, e batendo nos portões pedindo emprego, me oferecendo para fazer qualquer tipo de serviço doméstico, que na ocasião não consegui. Algum tempo depois, minha cunhada, mãe de meu sobrinho mais velho, me levou para trabalhar numa confecção de camisas masculinas chamada Fugas, para tirar linha das peças, sem carteira, tendo que ficar atenta a qualquer sinal da fiscalização para me esconder. Trabalhei nesse local ate o final de 1994, saindo de lá, cheia de influências boas como também ruins.

Em 1995 retomei os estudos à noite, tendo concluído a 8ª série, bem como tive a primeira assinatura na minha carteira de trabalho em maio deste mesmo ano, como auxiliar de costura, cujo trabalho continuava sendo fora da máquina de costura, uma vez que lá não pude aprender nada sobre costura diretamente na máquina, apenas observava as costureiras profissionais exercendo seus ofícios, com os olhos atentos no movimento de seus pés e mãos, sem saber, gravando em minha mente a maneira de passar a linha pelos caminhos da máquina, até
chegar na agulha. Fui despedida no mesmo ano de 1995.

No ano de 1996, fui trabalhar numa confecção de camisas sem carteira assinada, arrematando camisas e virando golas, apesar de desejar uma oportunidade de sentar à maquina industrial de costura, pelo menos para aprender, já que era diferente da caseira que tínhamos em casa.

 

Um belo dia, aproveitei a oportunidade da hora do almoço em que o local que situava as máquinas estava sem ninguém, me sentei numa máquina industrial reta, liguei, e com um pedaço de pano, dei os primeiros pontos. Só não contava que o dono da fábrica, o qual somente permitia que as profissionais a executasse, me observava de longe. Instante que se aproximou sem que eu visse, e desenfiou todo caminho da linha até agulha da máquina, exigindo que eu refizesse o percurso da linha até a agulha. Neste momento, lembrei do período em que observava as costureiras trabalhando na antiga empresa, me mantive calma, e rapidamente fiz o caminho da linha até a agulha de forma correta. Por conta dessa minha ousadia, o dono da empresa decidiu me ensinar a fazer várias partes da camisa social masculina! Passei a trabalhar exercendo serviço de costureira profissional, sem receber como tal, e sem carteira assinada, mas para mim, tinha sido uma vitória.

Trabalhei nessa confecção até abril de 1997, quando fui fazer um teste para vaga de costureira profissional em outra empresa , me aventurando no meio das mesmas e diante do teste que fiz costurando várias partes da camisa, tive minha carteira de trabalho assinada como costureira profissional em 12/05/1997, 24 dias depois de ter completado 18 anos, ainda era menor, já que naquele tempo a maioridade era aos 21 anos. E mais, com menos de dois anos exigidos por lei para que o profissional mude de função de auxiliar a costureira.


Conheci varias pessoas que pontuaram que viam força de vontade e potencial em mim, me aconselhando a concluir o segundo grau e fui seguir os conselhos, terminei sendo aprovada na antiga “UniverCidade – Centro Universitário da Cidade” em 7º lugar, a qual consegui uma bolsa de 75% no curso de Direito. Decidi fazer esta graduação devido as circunstâncias vivenciadas dentro da favela da Grota no complexo do Alemão, lugar que nasci e residi até os 24 anos, saindo de lá indo para o 7º período da faculdade, depois do assassinato do jornalista da Rede Globo Tim Lopes, indo morar na zona oeste do Rio de Janeiro.

 

Começando do nada, sofrendo humilhações, sem emprego de carteira assinada, apenas de forma informal vendendo doces e salgados, e não tendo vergonha de pedir ajuda quando precisava, mesmo sabendo que o "não" eu já tinha.

Durante os 24 anos que residi na favela da Grota, no bairro de Ramos, chorei, sofri, enverguei, mas não quebrei; superei e neguei muitas sugestões ruins oferecidas a mim. Hoje aos 40 anos, como advogada, mãe de dois lindos meninos, esposa, palestrante motivacional, vejo que ser forjada nas dificuldades da vida me fez ser a mulher que sou hoje, loba, empreendedora, inclusive tendo mais tempo de comunidade do que de zona oeste. Sou a prova viva de que é possível triunfar mesmo diante das lutas e mazelas da vida, que não foram poucas. Deixo um recado: Viva intensamente, não desista nunca, pois o mundo não é limitado, ele oferece tudo de bom e de ruim, mas abraça quem quiser, e digo, tudo depende exclusivamente de você!