Florianópolis, setembro/2020

 

Meu nome é Maria Cristina Fabi, porém, sempre gostei que me chamassem por Cris. Hoje, Cris Fabi é meu nome artístico. Nasci em 1962, na cidade de São Paulo, SP. Cresci durante o período da Ditadura Militar. O momento político repressivo instaurado pela Ditadura marcou definitivamente a minha trajetória pessoal. Pertenço a uma geração que cresceu com medo.


Meus pais eram conservadores, tínhamos uma grande diferença de idade e eu sou a caçula da família. Cresci com muita proteção e cercada por regras e condutas. Desde muito cedo, desenvolvi gosto e habilidades artísticas, sendo que o ballet era minha maior paixão.


Na adolescência, a rebeldia tomou as rédeas do meu destino.

Me matriculei em uma escola de Teatro, meu desejo era ser atriz. Meus pais foram contra a ideia de eu me tornar atriz, pois meus avós e minha tia materna eram atores. Para meus pais a profissão de atriz era mal vista.


Me apaixonei por um rapaz que meus pais não aprovavam, situação bastante delicada. Após dois anos de namoro eu engravidei. Eu desejava me casar e ter meu filho, porém, as famílias não aprovaram. Minha família me conduziu a fazer um aborto. Sofri muito, nunca fui capaz de esquecer. Porém, há alguns anos atrás, depois de rezar bastante, consegui perdoar. Posso pensar e falar sobre o assunto com mais serenidade e clareza.


Voltando ao passado, o namoro com o rapaz ainda sobreviveu por mais algum tempo. Depois nos separamos, sem que eu deixasse de amá-lo. Coisas da Vida. Fiquei um tanto desorientada por algum tempo, não dedicava meu tempo e atenção necessários aos estudos. Me tornei aquela que dava trabalho para voltar para casa, não seguia as regras na escola.

Passado um tempo, conheci um rapaz e ficamos juntos, e eu engravidei. Falta de orientação, esclarecimento, enfim, educação sexual. Aquilo que não é dito, explicado, e debatido, se torna algo desejado e inconsequente por ser "proibido". Dessa vez, meus pais me impeliram ao casamento, eu tinha 18 anos e ele também. Um jovem sem nenhum preparo para a vida, sem trabalho, sem rumo. Mal nos conhecíamos. Foi triste. Enfim, tive uma filha linda, que eu amo.

 

Eu terminei o segundo grau e vivi por um tempo, exclusivamente para cuidar da minha filha, da casa.

 

Três anos depois da Gabriela, veio o Lucas, filho amado, um bebê lindíssimo. Continuava casada, mas não posso dizer que era feliz. Trabalhava em casa com artesanato, vendia pratas, produtos de higiene.


Quando percebi que meus filhos estavam mais crescidos, resolvi voltar aos estudos, queria muito fazer uma faculdade. Como sempre amei as Artes, fui estudar Educação Artística. Estudei para o vestibular em meio as brincadeiras das crianças, dos afazeres da casa, mas consegui ingressar numa Universidade Estadual pública e gratuita. Foi uma felicidade só!


O casamento ia mal... Estávamos há 12 anos juntos, as brigas por ciúme eram constantes. Ouve uma vez em que eu sai fugida de casa, corri para o carro ainda de pijama por medo de ser agredida.

A situação se tornava cada vez mais insustentável. Eu não tinha o apoio da família para me separar. Mas decidi que era isso que eu queria. E assim foi, com muito esforço, muito desgaste emocional, eu me separei.

Nesse momento da minha vida eu já havia terminado a graduação e trabalhava em exposições de Arte como monitora de público. Eu adorava meu trabalho. Mas para sustentar meus filhos eu precisava de um trabalho fixo, porque essas monitorias em exposições eram temporárias.


Comecei a trabalhar em um buffet como garçonete aos finais de semana. Deixava meus filhos sozinhos. Não conseguia ter um almoço ou passeio de domingo com eles. Isso me fazia sofrer bastante. Meus filhos também sentiam esse desconforto, passavam o dia vendo televisão e estudando pouco. Tiveram problemas na escola, baixo rendimento. Uma situação muito delicada.

Minha filha adolescente se apaixonou por um vizinho e após um ano de namoro, resolveram que queriam ir para o Japão trabalhar, era aquela época em que os descendentes de japoneses iam buscar no Japão trabalho para retornarem ao Brasil com uma quantia considerável para viver no país. Tentamos demover essa ideia da cabeça de minha filha. Mas a família dele tinha grande influência sobre ela e assim ela estava convencida a ir. Para isso, eles teriam que se casar. Como eu não admitia agir como agiram meus pais, me obrigando a fazer aquilo que eu não queria, eu fiquei ao lado da minha filha e consenti.


Passado um tempo eles desistiriam de ir para o Japão. Nesse tempo meus pais, minhas irmãs resolveram se mudar para Florianópolis. Eu seguindo os passos da família e também vim. Viemos para Florianópolis em 2001. Eu meu filho, filha e o genro. Chegamos em pleno inverno.

Aqui pude estreitar a minha relação com meu filho, nos tornamos mais amigos. Minha filha foi morar com o marido em um bairro próximo. Os dois discutiam bastante. Ela trabalhava, ele enrolava. Após um ano, decidiram se separar. Ela foi morar com o pai em Recife. Meu filho também. Fiquei sozinha numa casa com um terreno enorme, e duas cachorras.


Trabalhava como professora, e passava os dias em quando estava em casa, na solitute. Sofri de saudades dos meus filhos. Entre idas e vindas, meus filhos oscilaram entre morar comigo ou com o pai, no interior de São Paulo. Hoje em dia minha filha mora no mesmo quintal que eu, junto com minha neta mais velha de 13 anos.

Meu filho casou com uma menina que amo como a uma filha, eles têm dois filhos amados. Eu conheci há 16 anos atrás um rapaz estudante de Economia quando eu lecionei no Colégio da Universidade Federal. Ele é vinte e três anos mais novo que eu. Vivemos anos muito felizes onde eu revivi, redescobri o amor. Dotado de um coração gigante de bondade, incrível para com meus filhos inclusive.


Mas eu preciso contar também que durante esse tempo em que eu vivi feliz no amor eu investi na realização dos meus sonhos. Com apoio do meu companheiro, estudei teatro, vivenciei teatro, fiz um Mestrado em Artes, pesquisei em teatro. Fui à Europa sozinha, conheci cidades de três países. Fui estudar e atuar para cinema e audiovisual e há pouco tempo resolvi ser modelo sênior, e por que não? Conheci o Movimento Top Loba criado pela Angel Mancio e passei a acreditar através de incentivos e dicas maravilhosas, ser possível realizar mais esse desejo.

Bem quanto ao meu casamento, as coisas não vão bem. A diferença de idade está se tornando latente. Temos vontades diversas, desejos diferentes, projetos individuais. A menopausa trouxe grandes mudanças na minha vida, sejam físicas, emocionais e espirituais.

 

Hoje busco mergulhar para dentro de mim, me conhecer, me desdobrar para me ver. A certeza de que tenho coisas novas para viver e realizar me impulsionam para frente, com consciência social e espiritual. Me tornei vegana também.

Agradeço a oportunidade de falar um pouco sobre meus cinquenta e oito anos de vida!

Cris Fabi