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"Por onde começar? Não sei direito, mas talvez pelos meus pais.

Meus pais nasceram em 1930.

Meu pai nasceu em Belém do Pará e teve impaludismo, febre intermitente típica da região norte àquela época e, ao ser tratado com quinino, teve o nervo da audição e das cordas vocais afetado, só vindo a falar aos 5 anos de idade.

Minha mãe no Rio de Janeiro/RJ e, aos 7 anos teve sarampo e recolheu, assim sendo, começou a perder a audição a partir dessa idade.

Meu pai foi para o Rio de Janeiro e lá conheceu minha mãe numa Associação de Surdos e Mudos, como era chamada na época. Ele era o melhor dançarino (pois os surdos, hoje chamados de deficientes auditivos, sentem a vibração do som) e ela, a mais bonita, pois parecia uma artista de filmes de Hollywood.

Por falta de informação médica à época, meus avós temiam que meus pais tivessem filhos “defeituosos”, ou seja, surdos. Mas nasci em 1960. E nasci perfeita. Nasci como diziam “ouvinte e falante”. Na verdade, meus pais falavam, só não ouviam e mau pai tinha uma fala enrolada pelo tratamento errado que recebeu recém-nascido.

Enfim, cresci com uma série de limitações e falsos conceitos. Meus pais me ofereceram aquilo que receberam. Meus avós não tinham tempo para lidar com a deficiência deles e assim, na medida do possível, recebi amor.

Meu pai era alcoólatra e, aos 5 anos de idade, por causa da bebida, ele quebrou o nariz de minha mãe na minha frente. Foi horrível!! Sangue para todo lado! Lembro que eu tentava fazer meu pai parar de fazer aquilo.

Ainda naquele mesmo ano, por uma desnutrição muito grande, fiquei 3 meses sem andar e tive que ser internada num hospital com o diagnóstico de paralisia infantil. Uma sensação de abandono e impotência diante das lágrimas do meu pai que dizia que eu ia ficar "aleijadinha" agravado com uma missa de Natal, onde meus padrinhos me rejeitaram porque eu estava numa cadeira de rodas. Mas voltei a andar.

Estudei, nunca repeti de ano, mas não fui considerada brilhante, pois era minha obrigação estudar. Não era assim?

Já mocinha, por volta dos 12 anos, visitando minha madrinha de crisma, fui brincar com as crianças da casa ao lado. O tio das crianças, já adolescente, no meio da brincadeira, começou a me bolinar, metendo o dedo na minha vagina. Chorei, mas não podia falar nada. Tive medo! Medo de não acreditarem. Medo de escândalo. Medo de apanhar da minha mãe. Apaguei tal fato da minha mente que, só muitos anos depois, em terapia, foi que me recordei disso.

A convivência com o alcoolismo de meu pai era terrível e piorou quando nos transferimos para Brasília. O último lugar em que eu queria ficar era em casa. Aos 19 anos perdi a virgindade. Nada de amor e carinho apesar de ser namorado, mas foi forçado sim, fiquei quase uma semana sem poder me sentar. Enfim, engravidei. Ele sugeriu que eu abortasse, mas não o fiz. Não me casei, mas tive muita ajuda de meus pais. Eu já estava na faculdade e, em seguida, prestei concurso para a Secretaria de Educação do DF.

Eu trabalhava à noite na Ceilândia, num lugar longe e sem ônibus, então pegava carona até o centro de Taguatinga com o vice-diretor até que ele soube que eu era solteira e tinha um filho de 2 anos. Passei a ser assediada e, até conseguir transferência para o turno diurno, pegava carona com outros colegas.

Sofri preconceito, fui destratada, mas nunca perdi a dignidade.

Aos 27 anos me casei com um rapaz que trabalhava num Tribunal. Levamos meu filho conosco, que à época, tinha 7 anos. Mas não deu certo. Alcóolatra como meu pai, vivi o que minha mãe viveu. Meu filho, em 6 meses, pediu para morar com os avós. Meu ex marido aprontou várias vezes comigo. Me batia e, embora tentasse fugir dele, não conseguia. Ele começou a namorar uma colega do tribunal onde trabalhava e, ele viajou com ela para ver a Fórmula 1 em São Paulo.  Sabe o que é ficar um fim de semana inteiro num ponto de ônibus esperando uma pessoa chegar? Eu fiz isso. Estava perdida  atônita... chorei o fim de semana inteiro sentada na parada. Depois ele chegou e eu descobri as fotos deles. E o pior,  a mãe dele sabia. 

Ele perdeu o emprego e fomos vender cachorro quente em escolas e festas de clubes. Uma vez, ele inventou que queria fazer sexo a três e convenceu uma mulher horrorosa para isso.  Chegou a levá-la até nossa casa. Eu fiz um escândalo e ela foi embora.

Uma vez tomei tanto remédio querendo morrer que fiquei três dias drogada, sem conseguir levantar da cama.

Não existia Delegacia da Mulher, Lei Maria da Penha, Estatuto do Menor e do Adolescente. Engravidei e achei que as surras iam acabar. Puro engano: apanhei tanto que perdi a criança! 

Ele roubou um dinheiro do emprego que arrumou numa empresa e chegou em casa com passagens para o Nordeste dizendo que faria uma viagem à serviço. Na verdade, estávamos saindo fugidos da polícia. Não havia celular e não tinha como eu avisar à minha família para onde eu estava indo. Fomos para Maceió e eu era vigiada e não consegui falar com meu filho por três dias. Ele alugou um carro e, me deixava no hotel dizendo que tinha reunião.  Entretanto, no terceiro dia me disse que ia comprar um remédio na farmácia e não voltou mais. Roubou o carro e fugiu.

Fiquei em prisão domiciliar no hotel até que meu pai mandasse o dinheiro das diárias.  Só tive direito de voltar com a roupa do corpo. A seguradora pagou a Locadora. Quase perdi meu emprego, respondi a processo de abandono de cargo.

Fiz terapia, me reergui. Recomecei do zero.

Quando ele vinha à Brasília, descobria em que escola eu trabalhava e ia atrás de mim. Foram dois anos de terror. Ele fugiu de novo. 

Depois o pai dele foi atrás de mim para eu assinar o divórcio.  Foi a melhor coisa que fiz.

Mas fiquei com medo de me envolver. Até que, aos 42 anos, conheci meu segundo marido e ele tinha muitas coisas que eu tinha pedido a Deus. Moramos juntos por 8 meses e nos casamos na igreja, papel passado e tudo o que tinha direito. Foram anos maravilhosos juntos. Mas, foi acometido por um infarto fulminante e, aos 48 anos, fiquei viúva. Precisava recomeçar, me reinventar.

Meu filho estudou e se formou em Geologia, fomos sempre amigos e muito companheiros. Eduquei um homem! Cuidei dos meus pais (meu pai faleceu em 2001, após ter tido um câncer e minha mãe, em 2011, já com Alzheimer).

Posso dizer que eu repeti o padrão sistêmico de minha mãe, onde vivi situações de abuso, traições, violência doméstica. Tinha baixíssima autoestima e só com a maturidade é que fui me construindo. Me tornando a mulher que sou. Na terapia, uma das coisas que trabalhei foi: isso que você pensa e sente, é realmente seu? Ou é algo que te fizeram acreditar? Conforme fui respondendo estas perguntas, fui descobrindo a pessoa que sou.

Não sou perfeita, nem quero ser! Tenho horror a quem quer ser.... Gosto de rir! De quem me faz rir, quem me traz leveza..."

Cris Vilhena

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