O sangue indígena está nas veias


O Dia do Índio, celebrado no Brasil em 19 de abril, foi criado pelo presidente Getúlio Vargas, através do decreto-lei 5540 de 1943. Esta data sempre é lembrada com muito carinho, por uma Top Loba em especial. Andréa Azevedo (46), de Salvador, trás aqui um pouco da sua história e origem. Até hoje a nossa Déa Azevedo (como gosta de ser chamada), procura descobrir de qual (ou quais) etnias faz parte. Em seu dia a dia fortalece a ideia de que encontrar-se com o seu povo será como estar mais perto da sua verdade pessoal. Pois se reconhecer como mulher indígena urbana que trás a ancestralidade da família biológica do pai, mesmo não vivendo num contexto de aldeamento será de grande orgulho para toda a vida!

"Acredito que o ponto de partida será no município de Buritirama (Buriti) que fica localizado no estado da Bahia. Lá nasceu a minha bisavó Maria Amélia (‘Ciní’ como era mais conhecida) por volta dos anos 30, mãe de minha avó Clarice Viana. Clarice então conheceu o professor Hilário Bispo de Azevedo que ali levava conhecimentos e aprendizados para aquele povo.

 

Desta união nasceram dois filhos, sendo que um deles chama-se Edson Viana de Azevedo, meu pai! E com muito orgulho, confesso que também com ansiedade, que busco as raízes étnicas dessa história que chega até a minha vida. Claro que para chegar até essas informações e outras que tenho em documentos, precisei estancar o tempo juntamente com o auxílio de meu pai e agora com ajuda de amigos indígenas que já habitam em meu coração.


Gostaria de dividir com o Movimento Top Loba essa gratidão de estar com pessoas tão incríveis que hoje fazem parte da minha vida. São muitos nomes, mas aqui preciso destacar dois indígenas que acredito que irão apresentar algo interessante para todos nós.


Ah...isso é só um começo de conhecimentos indígenas que vamos compartilhar por aqui!


Agradeço a todos pelo carinho e atenção a esta matéria, principalmente a nossa querida Angel Mancio, por esta oportunidade! Conheçam abaixo, meus amigos Gerson e Awasure.


Beijos.
Andréa Azevedo."

"Olá amigos leitores,


Me chamo Gerson Santos de Lira, sou nascido e criado na capital Natal/RN, tenho 33 anos, sou ativista e educador popular nas causas indígenas... mas entre vários nomes conhecidos, podem me chamar de Kanindé.


Bem, venho aqui falar um pouco sobre minha identidade e meu processo de construção étnico. Conheci através da capoeira, o idioma ava ñe'ê, mais conhecido como tupi guarani, há dez anos atrás, através de Aucides Sales, artista plástico, pesquisador e historiador das culturas indígenas do RN e parte da velha guarda da capoeira do estado.

 

Dentro do contexto cultural em geral, mergulhei no universo do idioma guarani e percebi a riqueza e a importância dele para um indivíduo, descobrindo assim, minha etnia, mais conhecida como Trarairiú, uma das etnias que por aqui andam até hoje por milênios... povo de costume gentil, até antropófagos... mas de uma característica muito guerreira das etnias  macro jê.


Através de muitos trabalhos realizados pelo Estado e algumas cidades do Brasil, reforço a importância da auto afirmação por questões políticas e sociais. Acredito que para o momento  em que estamos passando em nosso país, acho importante fortalecer a identidade do nosso povo (sendo nascidos em aldeia ou não). Vale ressaltar que, ao se conhecer etnicamente, reconhecendo seus valores culturais e habituais, acredito que não seja a única solução dos problemas enfrentados, mas sim, um próximo passo a se trabalhar em prol da grande nação do PINDORAMA "Brasil", ressalvo aqui principalmente os idiomas nativos, pois se reflete muito até hoje nas pessoas. Assim como "se olhar no espelho", vejo o quanto estão vivos nossos valores ancestrais, e estão presentes em nosso cotidiano. Vale lembrar também, que nesse processo, as vezes árduo e confuso, a auto afirmação é valiosa! Em meio a tantas coisas de "juruá" (europeu/estrangeiro) que são impostas a nossa sociedade de forma agressiva, assim negligenciando a existência de 305 etnias e 277 idiomas indígenas.


Então convido todos os leitores a refletirem sobre nossas Raízes!
Procurando saber mais de onde viemos, quem somos... assim mesmo, perguntando aos nossos pais, avós, sobre aquelas histórias que contam, como foi de lá pra cá.

Para finalizar essa pequena reflexão, deixo aqui uma breve pergunta:

Quem pode nos negar diante de nós mesmos?

Acredito que não precisamos de "diretores de índios" para afirmarem quem realmente somos... como diz um velho ditado brasileiro  "Não deixe a peteca cair".

 

ANIKE REJAI PETEKA HO'A.

 

Desde já agradeço pelo espaço, aqui deixando um pouco da minha vivência e reflexão. Aguyjevete. Muito obrigado."

"Meu nome Orlando Cruz, conhecido como Awassury Cruz, sou do povo indígena Kariri Xocó, que fica localizado na margem esquerda do Rio Opara, onde vocês conhecem pelo Rio São Francisco."

Sobre o Covid19 na aldeia

"O coronavírus, é  uma doença muito perigosa para todos nós. Aqui na minha tribo, muitos sabem o cuidado que devemos ter, principalmente a gente que não tem tanta defesa em nosso corpo em relação a certo tipo de doenças ou vírus, os agentes de saúde aqui na aldeia estão todos atentos em relação a muitos parentes que viajam bastante para fazer apresentações, vendas de artesanatos e outros eventos na capital. Eu estava em São Paulo, quando cheguei aqui na aldeia, já tinham quatro parentes me esperando para me colocar em uma casa de isolamento e fiquei por 12 dias, sem sair. Minha irmã Tkayane ia levar meu almoço, chegava na porta, batia e falava: 'é o almoço'. Me senti uma pessoa ruim, que estava preso como um bandido que fica preso na cadeia. Mas aqui na aldeia, nós não estamos recebendo ninguém, apenas pessoas da nossa aldeia.
Sinto muito pelos meus parente indígenas do Mato Grosso, Amazonas e do Acre que ainda são mais frágeis em relação as doenças e vírus. Eu sei também que mutas aldeias se fecharam por conta desse vírus, mas eu tenho medo de algum parente se contaminar com Covid19, pela razão do meu povo em geral viver mais na coletividade. Pois se um de nós contrair esse vírus, praticamente a aldeia em peso estará em perigo."

 


Medicina tradicional


"As ervas ainda são o principal meio de tratamentos e curas de doenças nas comunidades indígenas. O índio possui uma sabedoria de combinações de ervas que ajudam a combater enfermidades causadas no corpo humano. O indígena também tem sua ciência, mesmo com a implantação de um sistema de saúde oferecido pelo Estado, os métodos tradicionais ainda são a primeira opção para o índio; as ervas e plantas representam a pureza que a mãe natureza oferece, enquanto os medicamentos laboratoriais oferecem tratamentos com uma complexidade de riscos, que inclui o desenvolvimento de outros problemas de saúde.


Fazemos uso de alguns recursos naturais como casca de pau de algumas plantas, folhas, raízes, sementes, água, que preservamos em nossas matas para evitar o consumo de remédios produzido na indústria farmacêutica. Os resultados são positivos, e é por isso que a tradição é permanentemente de geração pra geração.


Acreditamos que tudo que brota na natureza tem um propósito, cada folha, cada flor, cada árvore, cada planta tem sua função. A relação de uma mãe (natureza) com seu filho é de cuidado, proteção e transmissão de conhecimento, e é por isso que o indígena se sente seguro
recorrendo a medicina tradicional.

Jurema é uma planta nativa brasileira, é muito sagrada para o meu povo kariri xoco, onde ela age na espiritualidade e serve também para materialidade do corpo, onde cura inflamação, feridas etc.

Velandinho é uma planta nativa brasileira que é essencial para cólicas menstruais, febre, dores de barriga etc.

A minha Xanduca (cachimbo sagrado) é feita com amor e respeito, e com madeira especial, como Jurema, Angico, feijão bravo etc, a nossa Xanduca é sagrada porque através dela, a gente agradece a êdjadwa (Deus) êakdjadwalhar (vários espíritos da natureza) pelo que eles nos oferecem."

Sobre artesanatos

"O amarrador de cabelo da mulheres: é feito com cuidado e carinho, com variados  tipos de penas, onde as mulheres se sentem mais atraentes.

Os colares: são feitos de sementes e ossos dos animais que nos alimentamos. Por isso a maioria dos nossos colares depois de benzidos, é uma proteção pra gente.

O nosso Cocar: É nossa casa quando estamos com ele em nossa cabeça! Por isso é muito sagrado pra gente!

Mas, o que eu quero passar pra todos vocês é que os indígenas não fazem algo que não tenha um sentido. Nós aproveitamos a natureza com sabedoria e amor. Não pensem que fazemos coisas erradas com a natureza. A mata e os animais em geral tem uma importância muito especial. 

Klhafô (Obrigado)."

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