A vida precisa de pausas. Como lidar com os afetos de fim de ano? 

 

Vocês já perceberam como o “final do ano” parece trazer uma certa “loucura”? Temos de reconhecer que talvez essa época seja  um pouco perigosa. Os ânimos, em geral,  ficam alterados pelas rupturas de: ritmos, rotina e organização do tempo. 

 

Esse momento de encontros, desejados ou indesejados, desperta os mais variados afetos. Algumas pessoas ficam mais emotivas, reflexivas e até angustiadas porque precisam rever de certa forma as escolhas realizadas durante o ano, outras ficam eufóricas com o apelo às compras, tem aquelas que sofrem revivendo perdas importantes, bem como as que idealizam esse período, querendo que tudo seja perfeito. 

O que fica evidente é a reatualização de lembranças e de saudosismos. As fortes experiências infantis retornam e trazem saudades do passado- idealizado, é claro!-tão idealizado que surgem saudades até do que nunca existiu. 

 

Fica uma exigência implícita de que todos deveriam se sentir felizes e contentes, afinal é Natal! Essa inquietação silenciosa remete as pessoas a certa estranheza ou complexo de inferioridade, por acreditarem que o outro é mais feliz e realizado. Olhando de fora tudo fica lindo: a família “doriana” fica estampada nos comerciais de tv, trazendo sentimentos de frustração para as pessoas reais, que vivem conflitos e impasses inerentes à própria condição humana. 

 

Apesar da vida precisar de pausas, a possibilidades de desacelerar, de alterar a rotina, de  iniciar um novo ciclo escancara os sentimentos que estavam encobertos por um excesso de atividades. O vazio vem à tona! E agora? Um novo ano está chegando! O que fazer? Como lidar com o medo do futuro? 

Esse medo nos põe à prova! 

As pessoas ficam mais reativas e ansiosas. Já perceberam que no fim do ano, o trânsito piora e as pessoas ficam mais impacientes e irritadas? 

Nas filas quilométricas dos shoppings, lojas ou supermercados podemos, com pouco esforço, observar pessoas apressadas, reagindo com explosões desproporcionais de raiva. 

 

O fim do ano nos convida a um ponto de passagem, a uma travessia bem importante, pois nos tira da zona de conforto. Estampa a urgência do tempo e a transitoriedade da vida. 

 

Sem falar nos esforços e malabarismos para que os encontros aconteçam. As mais variadas experiências permeiam esses momentos, de cômicas a trágicas, nas reuniões de família, do trabalho ou do grupo de amigos poderemos encontrar variadas situações, desde os fofoqueiros (que só vão para atualizar o pessoal das “novidades”), os os palpiteiros (que vão para reparar nos detalhes e dar a “boa” opinião sobre a vida alheia), os experts (os sabichões que adoram contar vantagens) os sem noção (que chegam sem convite, não participam das divisões de tarefas)  ou os muito ocupados (com uma lista enorme de tarefas para cumprir, desde presentes até cartões de felicitações para o “papagaio do vizinho”). Até, no outro pólo, o abraço acolhedor daquela tia “bonachona”, o afeto transmitido através dos cozidos da ceia, os aromas e sabores, a decoração natalina, o riso inocente das crianças com a crença em Papai Noel, as histórias rememoradas com um quê de leveza e bom humor. E as dramáticas efusões afetivas? Estarão presentes nas confraternizações quase como uma alegoria. 

Esses encontros mobilizam variados afetos e não poderia ser diferente. 

 

Dai fica a grande questão: como lidar com esse estranho/ familiar que se apresenta, a cada doze meses, e levanta o tapete que escondia a sujeira dos nossos conflitos, angústias e medos? 

1- Não subestimar esse período: existem alterações individuais e coletivas que precisam ser levadas em conta;

2- Considerar que existe uma certa insanidade que se infiltra, nos detalhes do dia a dia, no fim do ano;

3- Não comparar a sua vida com a vida alheia: cada sujeito é único e como tal, sabe as dores e delícias de estar na própria pele;

4- Entender que esse período facilita as idealizações;

5- Não entrar na tríade: ansiedade da expectativa x pavor traumático x decepção e tédio melancólico;

6- Valorizar os bons encontros;

7- Dar mais importância ao fato de viver a experiência, ao lado de quem realmente importa, do que preocupar-se com o que foi consumido, com o que era melhor ou estava no melhor lugar;

8- Não se sentir improdutivo por dar uma pausa necessária;

9- Não ficar fazendo “balanços” desnecessários de tudo aquilo que você não conseguiu cumprir nesse ano ( há uma certa predisposição para que o balanço se mostre tímido diante das grandes realizações alheias);

10- Eliminar as comparações depressivas com os conhecidos excessos de fim de ano;

11- Não transformar suas aspirações, numa obrigação compulsória. Não se tornar prisioneiro de suas escolhas, pois há possibilidade de mudança. Não deixar seus desejos se tornarem um fardo;

12- Aproveitar o tempo de férias para realmente descansar e não o mobilizar para a resolução de questões em atraso;

13- Arriscar-se a viver o novo, ao invés de idealizar o passado, como se sua repetição fosse garantia de felicidade e segurança;

14- Encontrar um espaço possível de liberdade e criação, independente do que o outro exigir de você;

15-Valorizar mais o SER e menos o TER, pois as festas de fim de ano convidam ao consumo excessivo. Lembre-se que comprar exageradamente pode ser uma forma patológica de lidar com

as angústias.

 

A travessia do fim do ano tem muito mais a ver com uma mudança de estado de ânimo, do que necessariamente com a mudança no calendário. 

Você pode usufruir de satisfação no final do ano, desde que consiga fazer bom uso das pausas que são necessárias na vida. 

 

Com as palavras do maravilhoso Carlos Drummond de Andrade, encerro a Coluna deste ano, desejando que vocês tenham muitos desejos para 2019... 

 

Cortar o tempo

 

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. 

Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. 

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez 

com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente... 

 

Para você, Desejo o sonho realizado. 

O amor esperado. A esperança renovada. 

Para você, Desejo todas as cores desta vida. 

Todas as alegrias que puder sorrir. 

Todas as músicas que puder emocionar. 

 

Para você neste novo ano, 

desejo que os amigos sejam mais cúmplices, 

que sua família esteja mais unida, 

que sua vida seja mais bem vivida. 

 

Gostaria de lhe desejar tantas coisas... 

Mas nada seria suficiente... 

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. 

Desejos grandes... 

e que eles possam te mover a cada minuto,

no rumo da sua FELICIDADE!!!"