Coluna Divã da Autoestima

com Dra. Josiane Cândido - Psicóloga e Psicanalista

RELACIONAMENTO ABUSIVO

DORMINDO COM O INIMIGO

No mês em que a Lei Maria da Penha faz aniversário, o Divã da Autoestima
não poderia deixar de falar sobre um assunto de extrema relevância, que afeta a vida de milhares de mulheres no mundo, independente de raça, religião ou condição sócioeconômica. Falaremos sobre relacionamento abusivo.


Quando este tema é abordado, o pensamento mais comum refere-se à violência física, por ser a mais visível. Mas ela não é a única, existem as psicológicas. Os abusos começam de forma sutil e vão crescendo, à medida que a intimidade entre o casal aumenta. Infelizmente em muitos casos o desfecho da história é trágico e devastador.


Vou pontuar aqui, alguns indícios que devem servir de alerta em todos os
relacionamentos:


- Sentimento de posse sobre a mulher;
- Busca por controle sobre o corpo, desejo e autonomia da mulher;
- Tentativa de limitação de sua emancipação profissional, econômica,
social ou intelectual;
- Menosprezar, denegrir, inferiorizar ou humilhar a mulher em situações
sociais; Entre outros comportamentos de invasão e agressões diretas
ou indiretas.


Com frequência, observa-se queixas de mulheres sobre suas relações amorosas e a dificuldade em estabelecer limites às demandas e exigências
dos parceiros, que na maioria das vezes, lhes causam grandes sofrimentos.


“Ruim com ele, pior sem ele?“


Por que tantas mulheres se submetem, silenciosamente, ao DESAMOR E À
VIOLÊNCIA?
Muitas delas são atravessadas pelo grande medo da perda, da rejeição e do abandono. Por isso, se calam diante do parceiro abusivo. Negam a realidade e, ainda tentam justificar para si mesmas que isso é “amor”, mesmo diante da sua escancarada posição de objeto/lixo perante um homem.


Lacan, um psicanalista francês, em 1973, já dizia que “não há limites às concessões que cada mulher faz para um homem: de seu corpo, de sua alma e de seus bens.”


É fundamental pensarmos no enfrentamento da violência contra a mulher, no resgate da autoestima de todas nós, do nosso lugar no mundo e posicionamento na sociedade.
É urgente nos unirmos em prol daquelas que se submetem aos mais variados maus tratos, aprisionadas pelo medo e falta de amor próprio.
Recentemente houve um caso, muito comentado na mídia, de uma advogada do Paraná, que aparentemente, foi atirada pela janela, pelo próprio marido.


Fico me perguntando até quando tantas mulheres continuarão levando as
relações destrutivas até as últimas consequências?

De acordo com o mapa da violência contra a mulher de 2017, cerca de 12
mulheres são assassinadas, a cada dia, no Brasil.
Embora a Lei Maria da Penha tenha completado 12 anos, e as redes de
assistência à mulher vítima de violência tenham aumentado, o número de
casos de feminicídio também cresceu.


Em março, fiz um post, em uma rede social, abordando o assunto e isso
mobilizou mulheres do Brasil inteiro que estavam sofrendo ou saindo de um relacionamento abusivo. Elas se uniram e criaram um grupo de apoio via mensagens no telefone.
Nessa experiência, conheci variadas histórias de muito sofrimento e vou compartilhar com vocês um breve relato de uma delas.


Vou chamá-la de M.T. e agradecer desde já, sua generosidade em descrever de forma tão clara qual é a sensação de estar em um relacionamento abusivo.


“E então o amor acontece, sorrisos bobos, toques de mãos, carinhos, afagos e entrega de toda confiança.
E então o tempo passa e o outro demonstra aqueles pequenos traços de
ciúmes. ‘Ah, ele me ama‘! E aos poucos, antes que se dê conta, o outro já tomou conta de toda sua vida: decide seus amigos, suas roupas, o que você deve ou não falar, fala de um amor que não sobreviveria sem você.
E ele chegou, o abuso.... o amor tóxico, onde você está presa sem saber
como sair, sem saber se realmente vai sair, acreditando que precisa ficar e ajudar a pessoa a ser melhor.


Ele não vai melhorar!!!! Acorda, garota insegura, porque o abuso só evolui! Mas um dia você percebe que se perdeu de você mesma, não encontra o caminho de volta, não admite que vive refém da doença do outro e nem que está adoecida também.
Se culpa, se humilha, acredita ser inferior. Acredita que se abandonar o abusivo estará renegando um amor profundo.
Lembre-se, a cada nova chance que você dá ao abusivo, é uma chance que tira de si mesma.


Foi muito difícil me libertar da doença. No início, sai devastada, cheia de inseguranças, sofrendo com as ameaças e perseguições. Contei comigo mesma, com minha vontade de viver e fui à luta. Busquei ajuda e pedi socorro. Foi sofrido? Muito! Foi difícil? Extremamente! Mas faria tudo de novo para me libertar da prisão que eu mesma permiti que ele me colocasse.


Hoje, depois de passados 11 anos, vivo uma relação saudável e verdadeira, comigo mesma!"


Acredito que o caminho para tentarmos mudar esse panorama seja a conscientização das mulheres sobre o assunto. Bem como a conquista de confiança em si mesmas. Quando o emocional está envolvido, costuma-se
pensar que não há saída, como se a pessoa ficasse “cega” e não enxergasse a situação sob outro ponto de vista ou de forma mais ampla.

Temos de nos unir, buscar novos direitos, fazer valer os que já temos e confiar que podemos mais. Esse empoderamento é necessário para a busca de saídas possíveis.


Se você, leitora e Top Loba, está passando por algo dessa ordem ou conhece alguém que esteja em um relacionamento abusivo, não hesite em procurar ajuda.


Citarei aqui, alguns caminhos para quem quer buscar ajuda:
-Ligar para o 180, central de atendimento à mulher em situação de violência.


Este é o canal direto de orientação sobre direitos e serviços públicos voltados para a população feminina. A Central funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, inclusive finais de semana e feriados, e pode ser acionada gratuitamente de qualquer lugar do Brasil e de mais 16 países;


- Procurar delegacias da mulher;
-Procurar algum Centro de Referência de apoio à mulher ou a assistência
social na cidade onde reside;
-Procurar ajuda psicológica;
- Buscar grupos de apoio, por exemplo, MADA- Mulheres que Amam Demais Anônimas.
-Fazer uso da internet e das redes sociais como espaço de apoio e fonte de informações.

 

Inclusive, gostaria de destacar, o canal de comunicação chamado METE A COLHER, eles possuem site e aplicativo para smartphones. Os objetivos desse importante projeto são: apoiar as mulheres com segurança e sigilo, conectá-las e aproximá-las, incentivando a coragem para sair de relações abusivas.


Nessas breves linhas não conseguiremos esgotar todo o assunto, mas a semente já foi lançada. Contudo, só germinará, se houver solo fértil. Espero encontrar na leitura de vocês, uma terra fofa, preparada para receber essa semente e gerar muitos frutos!


Despeço-me com a citação de Simone de Beauvoir, autora e filósofa francesa, que influenciou o feminismo no mundo:


"No dia que for possível à mulher amar em sua força e não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma, mas para se encontrar, não para se renunciar, mas para se afirmar, nesse dia o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal".


Josiane Cândido - Psicóloga e Psicanalista
CRP 06/79404
E-mail: josianecan@hotmail.com
Instagram: @josianecandido_psicologa
Facebook: Josiane Cândido – Psicóloga e Psicanalista