Coluna Divã da Autoestima

com Dra. Josiane Cândido - Psicóloga e Psicanalista

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E ESSA TAL FELICIDADE, EXISTE?

Será que estar em um relacionamento garante a felicidade? O que faz as pessoas felizes?


O conceito de felicidade, tal como é comumente concebido pelas pessoas, significa obtenção de prazer e evitação do desprazer. Temos aí, uma grande contradição, entre aquilo que constitui o propósito dos seres humanos em suas vidas, ou seja, a felicidade no sentido de obter prazer pleno, e a possibilidade real dela ser alcançada.


No mundo contemporâneo, essa busca está cada vez mais acentuada. O discurso que domina é “Seja feliz!”, exigência a ser alcançada a qualquer custo. As redes sociais estão aí para comprovar essa afirmação, pois nas telas dos smartphones conectados, todos parecem ser muito felizes, terem vidas perfeitas e relacionamentos incríveis.


Mas o real da vida impera e, no fundo, sabemos que não é bem assim.
Embora não haja espaço para sentimentos de tristeza ou decepção, verifica-se inúmeros indivíduos sofridos e sufocados no silêncio e na solidão.


Só em 2017 foram registradas 344.000 separações no Brasil, ou seja, um a cada três casamentos terminou em divórcio.
O número de pessoas que vivem com depressão no Brasil já atinge 11,5 milhões de habitantes (5,8% da população), de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).


Erroneamente procuramos a felicidade no outro, pois a maioria das pessoas acredita que relacionamentos, mudanças físicas ou condições sociais podem trazer aquilo que lhes falta. Desta forma, as pessoas terceirizam sua felicidade, colocando no outro ou nas situações a responsabilidade de fazê-las felizes. Várias situações entram aí como promessa, “Se eu estivesse em tal lugar, seria feliz!” “Se tivesse tal emprego, seria feliz!”, “Se eu conseguisse tal coisa ou realização, seria feliz!” “Se estivesse com fulano(a), estaria feliz!” entre tantos outros. Essas idealizações são grandes armadilhas, porque não é alcançando ou mudando de casa, de cidade, de trabalho ou de relacionamento, por exemplo, que você será feliz. Só é possível ser feliz quando você mesma (o) respeita seus desejos, vontades e se valoriza.


A felicidade nunca poderá ser total, senão apenas parcial, no sentido de que ela deve sempre deixar um espaço para se querer mais. A satisfação total inexiste. Tem algo que é próprio a cada um, algo que falta e sempre faltará, independente do lugar ou da companhia que você estiver.


Logo a felicidade depende muito mais da própria pessoa do que de circunstâncias ou fatores externos.
Se a pessoa não está segura em seu lugar no mundo, não está confiante consigo mesma, poderá ir a Marte, mas continuará sofrendo. Haverá sempre uma insatisfação e uma vitimização.


É preciso repensar os ideais de “perfeição”, mudar as promessas de felicidade, não criar expectativas e deixar de comparar com a vida do vizinho, pois a grama dele não é mais verde que a sua. Todos enfrentam dificuldades e sofrimentos na vida, o que diferencia é a forma como cada um lida com isso. 


Na verdade, quando aprendemos a lidar com nossas próprias faltas e falhas fica mais fácil respeitar as escolhas, faltas e falhas alheias.
O grande problema reside justamente em achar que é possível satisfazer o outro ou ser satisfeita (o) completamente. Poderão haver satisfações parciais, muito boas por sinal, mas ter uma vida sempre prazerosa, plena e perfeita é impossível para todos nós.


Enquanto você depositar a responsabilidade da sua vida na conta dos que estão ao seu redor, o saldo será sempre de frustração, para ambas as partes. Cada um deve assumir a responsabilidade pelas suas escolhas e por sua própria felicidade.


É possível ser feliz com aquilo que se é, com aquilo que se tem, ou seja, você pode ser feliz em sua própria vida, desde que suas escolhas não sejam destrutivas.


Muita gente prefere sustentar situações muito desagradáveis, beirando ao insuportável, por medo de sofrer ou ser infeliz, contudo desconsideram que estar em um relacionamento insatisfatório é, por si só, muito mais sofrido.


Tanta gente aceita migalhas da vida, não batalha seu lugar ao sol, permanece em relacionamentos pessoais e profissionais decadentes por medo da mudança, insegurança, pessimismo, comodismo, entre tantos outros sentimentos limitadores.


Logo, o medo de desagradar, não ser aceito ou de perder amor são mordaças invisíveis que transformam essas pessoas em eternas insatisfeitas.


Sustentar um relacionamento é difícil, apesar da convivência ser uma necessidade, pois conhecer o outro de perto, com suas qualidades e defeitos, exige esforço e aprendizado diário. Precisamos de boas doses de respeito, tolerância e compreensão.


A busca da felicidade não pode estar associada a encontrar o par perfeito ou a cara metade. A grande sacada não é esperar o príncipe encantado, mas aprender a amar o sapo. Não dá para ficar só com o lado agradável, legal, bonito e gostoso da situação. Terão momentos difíceis, na convivência, inevitavelmente. Por outro lado, também não dá para viver o inferno em vida, e achar que está tudo bem.


Apesar de tudo isso, devemos apostar nas relações humanas, aparando as arestas e respeitando os próprios limites.
O que faz alguém infeliz não é estar ou não em um relacionamento, mas colocar-se em posição passiva, queixosa, sofredora, mortificada e não se sentir o protagonista de sua própria vida.


Sempre existirão pessoas chegando e saindo das nossas vidas, seja numa convivência estreita, seja esporadicamente em ambientes obrigatórios.
Você pode escolher quem entra na sua vida, como possibilidade de recomeço, de nova chance ou de “finais felizes”, bem como, quem sai dela como lição e/ou aprendizado para nunca mais se repetir.


“Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.”


Vicente de Carvalho- Velho Tema...
 
Josiane Cândido- Psicóloga e Psicanalista 
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