RELAÇÕES TÓXICAS E ALTERNATIVAS DE ESCOLHAS SAUDÁVEIS

“Primeiro você me azucrina,
Me entorta a cabeça
Me bota na boca
Um gosto amargo de fel
Depois vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar
Um bocado de mel
Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo,
Reflito, estendo a mão
E assim nossa vida
É um rio secando
As pedras cortando,
E eu vou perguntando:
"Até quando?"

Veja bem, nosso caso
É uma porta entreaberta
Eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta
Veja bem, é o amor
Agitando meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não.”

(Trecho da música Grito de Alerta, Gonzaguinha)

Música linda não? Mas vocês já se aperceberam a dura realidade contida nessa letra? Notaram que o que pode se apresentar como “romantismo”, muitas vezes pode estar acobertando uma realidade disfuncional, um relacionamento que agrega elementos de sofrimento e dependência?

Apresento-lhes o relacionamento tóxico. A presença do sofrimento produzido por práticas abusivas através de um dos sujeitos da relação e a aceitação do outro a essas condições, de forma recorrente, exacerbada ou velada, é o que conceitua este tipo de relacionamento.

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Vale salientar que essa relação danosa não se detém apenas aos vínculos românticos, a toxicidade pode também se apresentar numa amizade, num relacionamento familiar, no ambiente de trabalho. Contudo, é notório que esta fica mais evidente nas relações entre parceiros afetivos, casais que se auto impingem condições de convívio que estabelecem um ciclo vicioso de agressão (verbal, corporal, psicológica) x submissão.

Obviamente que toda relação entre duas pessoas próximas tem grau relevante de complexidade, nem todo o momento será emocionalmente equilibrado, nossas emoções podem alternar-se e desentendimentos podem ocorrer, porém esses momentos esparsos, tão somente, não fazem essa relação nociva, porém, a continuidade desse quadro de sofrimento, muitas vezes acrescida da dificuldade de se auto perceber nele, é que determina a inclusão e o grau de toxicidade.

São relacionamentos que causam mais angústia/medo, do que prazer, mesmo assim os pares permanecem imbuídos na retroalimentação desses sentimentos e emoções, de uma forma dependente um do outro. Correntemente os indivíduos envolvidos possuem, de um lado, características de transtorno de personalidade narcisista ou antissocial e do outro, se encontram pessoas empáticas e/ou emocionalmente dependentes, criando-se uma simbiose, ou seja, uma personalidade passa a alimentar o comportamento da outra.

Para quem observa de fora, este tipo de relação parece muitas vezes incompreensível, não se encontrando uma razão para que a pessoa esteja se submetendo a tantos abusos durante longo tempo, porém há de se considerar que relacionamentos envolvem afetos, dependência emocional e/ou material, além de aspectos conscientes e inconscientes, que vedam o submisso à percepção de uma saída para tal situação, obviamente para o dominante a relação é mais confortável não sendo comum que deseje sair dela.

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Mais das vezes o submisso até tem a consciência de seu sofrimento, porém, protela a saída do relacionamento ou mesmo teme esta saída, por ter que se afastar de uma situação de (des)conforto, seja porque envolve a saída do lar, o afastamento familiar, a questão econômica que será abalada acaso o dominador seja o provedor financeiro, dentre outros  fatores mais práticos que aparentemente desestimulam o rompimento e tornam a relação cada dia mais nociva, dado o tempo em que o indivíduo se expõe às agressões, que tendem a aumentar.

Nesse contexto, para haver mudança, “É necessário sair da ilha, para ver a ilha˜. Ilha de dor, de vida desmotivada, fincada em alicerces frágeis de uma ilusão de amor, posto que, não há amor onde impera o sofrimento, o desrespeito.

Para tanto, se faz necessário autoconhecimento, uma imersão em si mesmo para que se vislumbre se aquela vida, aquele relacionamento é saudável ou não. Ademais, em caso de maiores dificuldades, se deve procurar a ajuda necessária, principalmente profissional, pois, é corrente que algumas situações são demasiado graves e não possam ser simplesmente contornadas com breves conselhos. É necessário se visualizar que há um adoecimento emocional a ser tratado, que está afetando a qualidade de vida.

Uma importante faculdade é recorrer ao chamado estoque emocional, observar se é positivo
pensar no parceiro ou parceira. Se você tem carinho, sente-se bem na sua presença. Quando
isso provoca tensão, há problema, que pode ser algo pontual ou mais antigo.

A presença do sofrimento sinaliza que o processo é tóxico. Mas pesam também as questões de individualismo e intolerância, há de se ter, também, a percepção sobre se a relação carrega características abusivas ou se é você que não aceita quando o outro não corresponde às suas expectativas. Esse limite, por vezes, é tênue e por isso deve ser considerado.

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Contudo, tomar para si a responsabilidade de zelar pela paz a dois não resolve. Responsabilizar o outro por todos os problemas, igualmente não irá resolver. O abusador age de forma anômala, mas o abusado também está numa conduta disfuncional, deve entender, portanto, que tipo de papel desempenha e de que forma seu comportamento alimenta o lado negativo do parceiro, assim não repetirá o processo com outras pessoas.

O autoconhecimento parte do princípio de que, se a convivência faz mal a você, prejudica sua capacidade de sentir prazer e de mostrar o que tem de melhor e vem abalando sua saúde, o foco recai na auto responsabilidade para enfrentar e mudar essa situação, de nada irá adiantar apontar os erros alheios e querer que o abusador mude se você não mudar, isso dificilmente irá acontecer, poderá até perdurar por um breve período, porém as recaídas permaneceram a acontecer. E o ciclo vicioso se perpetuará.

Se faz necessário estabelecer limites, fazer acordos, verificar se o outro está empenhado na melhoria da relação, se realmente se importa com isso, se demonstra arrependimento sincero e tenta operar mudanças reais de atitude e reavaliação de sentimentos.

Assim, se parecer ser possível virar o jogo, deve-se deixar claro até onde você está disponível a investir na relação. É trazer à tona algo como: “Embora ame você, não gosto do que está fazendo, você ultrapassou o limite, não vou admitir isso”.

Este autoconhecimento permitirá que você passe a identificar as ações que a machucam e que também demonstre que não vai mais permitir que elas se repitam. Se o outro estiver, de alguma forma, comprometido com a saúde da relação, a tendência é que, com os limites, a frequência dos comentários ofensivos e das agressões diminua, até sumir.

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Contudo, se nada muda, se o outro permanece numa postura rígida, diminuir o contato costuma ser uma alternativa interessante, em alguns tipos de relação, quando não é possível romper de vez o vínculo. Às vezes, a pessoa se sente culpada por promover a distância, como se isso significasse que não ama o outro, mas é importante entender que muitas vezes diminuir o contato tornará a relação mais saudável. Outra forma, é evitar, naquela relação, alguns temas que sejam detonadores do equilíbrio e, ainda, a depender da necessidade e da proximidade, tentar abstrair as críticas, fortalecendo a autoestima e se percebendo exatamente quem é e não assumindo o que o outro diz sobre você.

De certo, dentro de cada um que enfrenta a convivência tóxica, existe a esperança de que o outro entenda que está sendo danoso, que mude e que a convivência se torne produtiva, saudável. É essencial, contudo, verificar a realidade, percebendo se as melhorias serão possíveis e se o outro e você estão realmente empenhados na mudança.

Porém, se o outro é abusivo e nem conversas e limites resultaram em indício de mudanças, é
preciso decidir se vale à pena continuar na relação.

Por fim, note-se que nem sempre as pessoas envolvidas são tóxicas em outras circunstâncias, porém, a sua relação com ele(a) o é. Assim, conseguir se afastar um pouco ou totalmente, sem sentimento de culpa, será medida de preservação da sua integridade.

Conceição Carneiro – Psicóloga CRP 02/6466, Especialista em Psicologia Organizacional, Jurídica e em Terapia Cognitivo Comportamental, mais de 30 anos de formação.