As curtidas, a rejeição e a autoestima

“Um viciado em Facebook se gabou para mim, dizendo que ele havia feito 500
amigos num dia. Minha resposta foi que eu tenho 86 anos, mas não tenho 500
amigos, então presumidamente, quando ele fala “amigo” e quando eu falo
“amigo” nós não estamos querendo dizer a mesma coisa”

(Zygmunt Bauman - sociólogo e filósofo, 1925/2017)

As redes sociais (instagram, facebook, whatsapp) têm, atualmente, um papel de grande interferência e relevância nos meios como nos pautamos e introjetamos as formas como somos aceitos, ou não, pelas pessoas com as quais nos relacionamos.


Em nossa “modernidade líquida”, como descreve o sociólogo Bauman, as pessoas buscam preencher os seus vazios existenciais com leveza e liquidez, como ocorre nas redes sociais através de inúmeras postagens e curtidas.  Líquidez no sentido de que as relações, com opassar do tempo, estão ficando cada vez mais superficiais e o contato pessoal entre os indivíduos é cada vez menor. Uma de suas mais famosas frases é a de que “as relações escorrem entre os dedos”. Tal definição aponta para a velocidade com que as coisas mudam.


Por esse preenchimento não ser profundo, logo “escorre dentre os dedos” e novamente
precisamos preencher com mais e mais fotos, mais e mais postagens e através da contabilização de curtidas e comentários que recebemos, verifica-se o grau de aceitação nos
grupos.

Essa mudança, porém, não se traduz, nos estudos de Bauman, em uma falta ou uma
necessidade de recuperar aspectos do passado, não quer repelir o uso ou menosprezar a importância das redes sociais, mas sim, reflete uma necessidade de reinventar e redefinir os valores da atualidade, com base em aspectos mais sadios de convivência e percepção do grau de interferência dessas novas formas de relação na construção e fundamentação de aspectos da personalidade.


Pesquisas apontam que o tempo médio gasto, diariamente, no acompanhamento das redes sociais tem crescido a cada ano, chegando até a 3 horas diárias de uso, além do fato de que cada vez mais pessoas estão aderindo a essas plataformas. 
Recentemente, em 17/07/2019, o Instagram anunciou que o Brasil se tornou o segundo país no mundo a participar de um teste que esconde as curtidas das fotos no feed para o público externo, somente quem fez a postagem tem acesso a essas informações. Tal medida partiu do princípio de que a competição por curtidas transformou a plataforma em um espaço tóxico para a saúde mental de quem a usa, diante da evidência de que a necessidade de aprovação em postagens corrobora para um risco à autoestima.


Boa parte das críticas às redes sociais fala sobre a criação de uma espécie de realidade de faz de conta, onde todos projetam imagens irreais de sua rotina ou para se destacar no meio e assim conseguir mais e mais seguidores, mais e mais curtidas ou comentários. Diante de tais publicações, indivíduos passam a fazer contínuas comparações e acabam pensando que sua vida é monótona, vazia, sem perceber que está perdendo o tempo que poderia estar dedicando a enriquecê-la.


Segundo Rodrigo Nejm, psicólogo e diretor da SaferNet (associação com foco na promoção e defesa dos Direitos Humanos na Internet no Brasil) – “É um excesso de pressão social, numa estética do que alguns teóricos chamam de felicidade tóxica ou imperativo da felicidade. No seu extremo, ela passa a ser prejudicial à saúde emocional das pessoas, gerando mal-estar, baixa autoestima e desconforto”. E ainda argumenta: “Estudos indicam que, para pessoas que estão em um quadro vulnerável, o uso de algumas plataformas pode agravar o quadro desse sofrimento emocional”.

A autoestima está diretamente vinculada à autoimagem positiva ou não que temos de nós. E quando não possuímos a plena convicção do próprio valor, necessitamos buscar esse reconhecimento fora, ou seja, em outras pessoas e passamos a depender de suas opiniões.


Assim, como atualmente os meios pelos quais mais se desenvolvem os relacionamentos são as redes socais, a aceitação ou não, nesses meios, irá interferir no padrão da autoestima.
O resultado para essa busca de aprovação nas redes sociais, de um modo geral, dado que há exceções para os “blogueiros” ou “influencers”, os que utilizam as plataformas para divulgar trabalho (e olhe que nem estes estão a salvo de críticas de “haters” que praticam “cyber bullings”), é uma grave generalização de insegurança e de baixa autoestima, que flutua de acordo com o número de curtidas em cada postagem.


Existem formas claras para se detectar um padrão baixo de autoestima nas redes sociais, como
segue:


*Muitos optam por aceitar um número indeterminado de desconhecidos, nunca
removem usuários com os quais não têm qualquer relação ou até mesmo, compram
seguidores;
*Declarações de amor e de amizade, a pessoas com as quais, no mundo real, não
compartilham desse sentimento;
*Aparentar uma vida perfeita, reafirmando essa felicidade nas postagens;
*Muitos “amigos virtuais” podem estar mascarando a solidão vivenciada na
vida “offline”. 


E não precisa ser assim, conforme dispõe Rodrigo Nejm: “A plataforma pode fazer bem às pessoas, desde que a gente consiga usá-la com critérios que não sejam unicamente de competição, comparação e imperativo de felicidade. Não existe vida perfeita sem momentos de tristeza, derrota e fragilidade. Se começamos a fingir que isso não existe, não é saudável”.


O certo é que a autoestima precisa ser desenvolvida muito mais na esfera real do que na virtual, tomando consciência dos valores internos, sem que se levante expectativas para com a aprovação dos outros, por mais próximos que estes sejam. Enfim, para que se tenha uma construção sólida da autoestima, é necessário que ela cresça a partir do autoconhecimento e nas relações saudáveis que se desenvolvem com o mundo real, com o outro e  com nós mesmos.


As redes sociais podem ser úteis, divertidas, aproximar pessoas distantes, porém, tudo dependerá do uso e da importância que dermos a elas, do grau de prioridade que terão em nossas vidas.

Yuri Busin, psicólogo, especialista em neurociência cognitiva, afirma que o Instagram virou uma rede social de exibição, pois o que é postado representa somente uma fração da realidade. Para preservar uma relação saudável com a plataforma, ele dá umas dicas:


*Reduza seu tempo diário nas redes sociais.
*Mentalize que a realidade mostrada na rede social é apenas um recorte da vida do
outro, aquilo que ele realmente quer mostrar.
*Escolha bem quem você segue: opte por perfis que agregam algo positivo - tanto em autoestima, quanto em conhecimento.
*Entenda que, ao se expor na rede, o que você posta pode ser aceito ou rejeitado por seus seguidores - e rejeições são normais e fazem parte da vida.


Talvez você não tenha 100 curtidas em todas as fotos, mas receberá comentários de pessoas de quem gosta, daquelas que foram especiais em um determinado momento de sua vida e até hoje continuam sendo, mesmo que o tempo e a distância os tenham afastado.


Entender que, o que os outros interpretam não nos define, não podemos evitar a rejeição, contudo aceitar ou não o que advém da rejeição cabe a cada uma de nós, da capacidade de apreciar e valorizar a própria história, a vida real. De qualquer forma, é salutar se agregar à companhia de pessoas que podem nos impulsionar, valorizar, com a certeza de que a principal personagem para a construção da autoestima somos nós mesmas.


Pode não ser fácil, mas dá para construir o amor-próprio no dia-a-dia, sem depender da aprovação virtual ou alheia, assim, sejamos mais gentis conosco, percebamos o valor da nossa história de vida, com seus altos e baixos. Não dar ao outro o poder sobre nossa felicidade, é o filtro mais importante a ser usado nas redes sociais.


Conceição Carneiro - Psicóloga