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Um coração preenchido por gratidão é tudo o que você precisa para começar um novo ano...

Para começar do início, convido vocês a um café e peço que preparem bons ouvidos para escutar minha história que é um labirinto para guiar além do limite do fim. Complexo? Não, é apenas uma forma diferente de contar uma história aparentemente comum.

Eu me chamo Elsa Gonçalves de Almeida, conhecida como Elsa Almeida, 48 anos de idade, terceira filha de sete irmãos. Nasci no interior de São Paulo, cresci em uma família conservadora, mas não estúpida, meus pais sempre foram carinhosos e cuidadosos conosco. Vivíamos em família num jardim de afeto, ou melhor, em um sítio de afeto, pois nasci e vivi minha infância e pré-adolescência no sítio dos meus pais. Pela manhã eu acordava cedo para seguir os passos do meu pai, fui criada molecona mesmo, tirava leite, lidava com gado, galinhas e sempre me orgulhei em fazer tais serviços, eu corria do trabalho de casa, porém quando o fazia, era bem feito, mesmo não gostando dos afazeres destinado a meninas.

Eu tive uma infância muito simples. O sustento da casa era a renda oriunda do trabalho do meu pai, em um outro sítio e minha mãe cuidava de nós e trabalhava em casa também com os afazeres local. Não passávamos fome, mas passávamos um pouco de dificuldade, porém meu pai sempre dava o seu jeito, “se virava nos trinta” e conseguia nos sustentar com dignidade. Me recordo que por mais que ele chegasse cansado do trabalho, ele sempre tirava parte da tarde para brincar conosco. Brincávamos de bola, de correr, banho de represa, balanço, e nessas brincadeiras ele nos passava bons conselhos, nos ensinava a ter fé, sermos humildes, unidos e acima de tudo a ter respeito uns com os outros. Nas festas em sítios vizinhos, em que éramos convidados, sempre falavam ao meu pai para nos deixar em casa com nossa mãe e ir sozinho, mas ele respondia com orgulho aos “amigos” que “onde não cabia os filhos e a esposa, não o cabia”. Frase esta que carrego comigo desde pequena, e ali eu começava a entender o quão importante é ser família.

Íamos sobrevivendo, com alegria e esperança de dias melhores, acreditávamos muito em Deus, íamos à igrejinha aos sábados e ou domingos, íamos nas rezas nos sítios vizinhos, bem típicos de rituais da época. Eu também possuía um grande sonho, sonhava em ser bailarina, achava lindo aquelas cambalhotas e piruetas, e cresci com essa vontade. Não fui uma criança levada, eu seguia a tradição da época, de pedir permissão aos pais para fazer qualquer coisa, o respeito e a obediência prevaleciam em minha família. Nem em festinhas eu ia sem meus pais, me recordo de que quando terminei o colegial, na formatura meu pai foi me levar ao local e ficou esperando a comemoração finalizar para retornarmos juntos para casa. Eu não achava errado isso, só discordava de situações em que meus irmãos, por serem homens, podiam sair e eu e minhas irmãs não, deveríamos nos resguardar e ser exemplo. Tamanha preocupação e proteção.

Eu tive aquelas paixões de criança e pré-adolescente, mas meu primeiro namoro mesmo aconteceu aos 16 anos, na mesma idade em que comecei a trabalhar fora de casa, sob permissão dos meus pais, é claro. Eu tinha aquela vontade de casar e constituir uma família, ter vida além da vida do sítio, e assim foi acontecendo. Consegui o meu primeiro emprego que foi como empregada doméstica, em uma casa onde a proprietária era cabelereira, foi onde trabalhei por um bom tempo e comecei a comprar cada peça do meu enxoval, queria deixar tudo pronto para meu casamento. Toda a vontade de me casar e entrar em uma igreja vestida de noiva concretizou em setembro do ano de 1990, aos meus 19 anos. Ocorreu tudo conforme planejado e seguimos todo aquele ritual. Meu companheiro era um amor, e nos casamos em nome disso. Depois de casada, comecei a ter contato com pessoas da cidade e até descobri algumas profissões interessantes, como curso superior em Direito, mas não tinha condição em fazer o curso e descartei a ideia.

Decorrente de tanto afeto tivemos um casal de filhos. O rapaz veio após 2 anos juntos, e três anos após seu nascimento tivemos a mocinha. Uma grande experiência e um grande sonho foi a maternidade. Aprendi muito como mãe, como esposa e como mulher. Foi uma realização, porém nada é perfeito. Fiz um curso de cabeleireira para trabalhar fora de casa, mas meu esposo se incomodava com meu trabalho, dizia que não achava necessário mulher ter que trabalhar, então decidi que não queria viver isso, pois não nasci para ser dona de casa. Após nove anos de casada, veio a separação e comecei a perceber a mulher que eu era. Foi uma separação tranquila e todos ficaram surpresos, pois vivíamos bem, mas como eu não estava satisfeita com algumas atitudes do meu companheiro, resolvi seguir minha vontade em ser livre.

 

 

Foram inúmeros aprendizados, contudo me encontrei após essa a separação. Me vi sozinha, morando de aluguel e com dois filhos que precisavam de mim. Para minha batalha ser maior, na mesma época, minha filha foi diagnosticada com síndrome de X frágil e me relataram que ela iria crescer, ter um desenvolvimento cerebral e depois vegetar em cima de uma cama. Para uma mãe, tal notícia veio com uma dor muito forte, e uma dor cheia de medos. O meu maior medo era o preconceito que minha filha poderia sofrer por possuir tal problema. Mas pensei: “sou mulher, tive bons exemplos em casa, não adianta cruzar os braços e chorar, é preciso acordar e ir resolver os problemas”. Na época me abalei muito porque até pessoas da minha família ficaram indiferentes comigo e de quem eu esperava uma mão, me deu as costas, porém não desisti. Eu tinha a certeza de que quando não se cruza os braços tudo se resolve. Aquela Elsa foi crescendo, se desenvolvendo, e na época se descobriu uma
mulher forte e determinada. Foi então que eu aprendi a dizer não, a me impor e a não ser submissa às coisas contrárias às minhas crenças. Nessa fase, habitou mais em mim o Deus que carrego e percebi que a força Dele transbordava em minha vida. Nos momentos em que mais me sentia sozinha, Deus me amparava e colocava anjos para me fortalecer, amigos que estiveram comigo em momentos de desespero, quanta gratidão!


Apesar das dificuldades, montei meu salão, no interior de São Paulo. Havia dias em que eu não tinha dinheiro para levar minha filha até o médico, recordo que eu ia ao mercado comprar 250g de carne e uma farinha de fubá, foram dias difíceis, mas a minha fé era tão intensa que os clientes apareceram e eu os conquistava dia após dia.


Eu não desistia, não cruzava os braços e não tirava o foco em ser feliz com meus filhos. Desta forma, tudo foi se ajeitando, algum tempo depois, conheci um rapaz, nos relacionamos e ele também era recém separado, possuía três filhos e com todo aqueles problemas de separação. Nos envolvemos, nos apaixonamos, e veio a vontade de nos aventurar, então passamos a moramos juntos. Meus enteados foram morar conosco e formamos então uma grande família. Nesse período nos mudamos para Mato Grosso do Sul, devido a uma proposta de trabalho. Fechei o salão e fomos todos residir em uma grande fazenda onde comecei a trabalhar na cozinha. Foi muito aprendizado. Eu não gostava do trabalho, porém eu entendia que as pessoas devem fazer o que gostam e dedicar ao que não gostam, e foi isso que fiz, me dediquei.


Devido a saúde fragilizada da minha filha, tive que me afastar do emprego da fazenda para cuidar da minha pequena. Passados meses, quando tentei voltar a rotina de trabalho, não me aceitaram novamente por falta de vaga. Portanto tentei voltar com o funcionamento do salão, porém fui frustrada pelo meu companheiro que discordava da ideia e via empecilho nisso. Foram aproximadamente sete anos de matrimônio. Não continuamos lado a lado porque o respeito de um relacionamento tranquilo estava diminuído, foi então que resolvi virar a página e encarar um recomeço. Deste relacionamento tirei valiosos aprendizados, aprendi a ser madrasta, evolui como pessoa, adquiri valores que carrego comigo até hoje, graças a Deus foi uma separação tranquila e madura, a gratidão prevaleceu.


Agora leitores, convido-os a deixar o café de lado, abrir um bom vinho e brindar em uma grande taça. A minha vida começou a ter mais brilho. Abri novamente meu salão, Salão Elsa Almeida, na cidade de Costa Rica - Mato Grosso do Sul, na época meu salão era pequenino e simples, mas finalmente conquistei meu espaço, resolvi mexer de vez com a cabeça das mulheres.


Eu explodia de felicidade ao ver minha clientela crescer a cada dia, e sabe aquele sonho de criança, de ser bailarina, e até fazer um curso de Direito? Pois então, eu bailava de alegria pelo meu salão e passei a ser mais que bailarina, virei psicóloga, advogada, conselheira, e acima de tudo amiga das mulheres que frequentavam meu estabelecimento. E o mais gratificante de minha profissão, era ver a autoestima dessa mulherada em ápice, era fazer com que elas se olhassem no espelho e depois de um belo toque no visual, com olhos brilhando, gritarem para si: “como eu sou maravilhosa, como sou gata, como sou bela”. Eu me sentia realizada em colaborar com o empoderamento das minhas clientes.

Quanta alegria eu sentia até me permitir viver um novo amor. Um homem também separado e com duas filhas, mas apenas uma, quis morar conosco, ela tinha onze anos. A família novamente cresceu, na mesma proporção e com muito amor, tivemos uma filhinha a Ana Júlia.


Neste meio tempo, passei pela maior perda da minha vida, meu grande pai veio a falecer decorrente de um linfoma. Durante a sua enfermidade ele ainda reafirmou entre os filhos o seu legado fazendo-nos certificar que a família é a maior riqueza que o ser humano pode ter e que o respeito deve prevalecer em toda e qualquer situação.


Deste dia em diante, eu vi que perdi o maior amor da minha vida e não morri, então que nos dias que estariam por vir, eu seria capaz de superar qualquer obstáculo. Neste momento eu conheci o companheiro que tinha dentro de casa. Meu esposo não me abandonou, pelo contrário, me deu todo auxílio que precisei. Meu pai estava em hospital há 800km de nossa casa e meu marido fez de tudo para que eu ficasse perto do meu genitor. Eu me sentia tão bem cuidada e tão importante na vida dele. Enfim, dedico este parágrafo ao homem que sou grata em ter ao meu lado. Jamais irei esquecer o que fez e ainda faz por mim. Meu esposo contribuiu bastante com meu crescimento pessoal. Me incentivou em fazer cursos e a crescer profissionalmente. E assim, eu sempre viajava para me aperfeiçoar. O Salão Elsa foi fazendo mais sucesso. O marido até começou com umas crises de ciúmes, mas foi tudo conversado e hoje ele ainda é o meu companheiro e benção de vida.


Os anos passaram e tudo mudou. Meu salão hoje é do jeito que queria, um espaço aconchegante, cheio de alegria, e lembram da minha filha, aquela que diziam que iria vegetar em uma cama? Hoje ela está com 25 anos, está casada, o casamento foi algo surreal, inesquecível e está concluindo o curso de Pedagogia. Minha moça está conquistando o mundo a cada dia mais. É um orgulho para uma mãe que tem uma filha com algumas limitações, prestigiar toda conquista e esforço da filha e ainda ver a filha bater no peito e falar que é igual a todo mundo. O meu outro filho está com 27 anos, é um empreendedor aqui na cidade, é proprietário de uma tabacaria e está crescendo e se desenvolvendo cada dia mais. A minha filha de coração, minha enteada, hoje possui 23 anos, já é dentista e mora conosco, ficou algum tempo fora, mas o bom filho a casa torna, rsrsrs. E a Ana Júlia está com 9 anos, estuda e caminha para ser exemplo como os demais, é a nossa Top Lobinha.


Eu vivo em um relacionamento bom, feliz, não perfeito, porque nada é perfeito, mas quando se amadurece, as coisas se tornam mais leves. Possuo o respeito, amor, carinho do meu marido e filhos e vi que a felicidade não está em ter muito e sim em ser muito, em ser uma boa pessoa, um bom exemplo, uma boa mãe, mulher, ser livre, a liberdade em que falo não é aquela de sair, com amigos, roupas curtas e voltar a hora que quiser e sim a liberdade de ser quem eu sou, de agir da forma em que acredito que seja certo, de impor respeito e ser respeitada. Eu não possuo arrependimentos em minha vida, todas dificuldades que passei contribuíram para eu ser a mulher que me tornei hoje. Aquela que respeita o espaço alheio e sabe conquistar o espaço da forma que quer. Me sinto mulher madura, inteligente, empoderada, tranquila, persistente, focada e de grande fé. Cresci muito com alguns tropeços. A partir do momento em que não se autopenaliza a pessoa só tende a crescer.


Hoje sou uma mulher que trabalha muito, tenho sonhos, planos. Aprendi a não colocar o dinheiro acima de tudo. Vivo cada dia como se fosse o último. Gosto de deixar bons rastros por onde passo, para alguns, rastros pesados e para outros nem tanto. Adoro fazer viagens, seja de trabalho ou lazer, me realizo também promovendo eventos e palestras para mulheres, eu friso temas sobre sexologia, pompoarismo, autoconhecimento e os resultados são maravilhosos. O engrandecimento da mulher se
torna visível e é gratificante contribuir com isso.


As minhas limitações são poucas, acredito que com planejamento é possível fazer sim o que se almeja. Entendo que o ano de 2020 foi um convite a um aprendizado maior, o crescimento é inevitável e a superação dos obstáculos é imprescindível. Sou eternamente grata a Deus e a Nossa Senhora Aparecida. A fé é o combustível que me mantém acesa.


Para o próximo ano, eu tenho um plano de fazer a minha primeira viagem internacional. Estou ansiosa para conhecer o mundo lá fora. Eu me considero a pessoa mais feliz do mundo, hoje tenho um bom companheiro, meus filhos e minha família.


O Movimento Top Loba conheci no facebook. Navegando aleatoriamente pela rede social notei uma camiseta com a frase: ”amo a mulher que me tornei”, tal frase me descreveu. Entrei no site do movimento e comecei a ler e saber da história do grupo. E vi que tudo era para mim. São lindas mulheres e com interessantes relatos. Eu quis participar do projeto e em um processo de catalogação, receber a honra da licença para adentrar, é ter permissão para voar.... me permiti mais uma vez...


Aprendi a tirar fotos, a me sentir mais segura do que eu era e a me ver como uma mulher mais empoderada do que já havia me tornado. Hoje sou Top Loba com orgulho, chego aos lugares e sou reconhecida por isso, “olha a Top Loba chegando”. Minha filhinha, Ana Júlia me acompanha no Movimento, ela é a Top Lobinha, minha menina encantadora! Em resumo, esse Movimento me trouxe mais equilíbrio, mais liberdade, autoconfiança e desenvolvimento pessoal. Acho que hoje sou mais peralta do que era quando criança, rejuvenesci uns 20 anos, rsrsrs. Alcateia linda e belas histórias de superação.


O conselho que deixo para as mulheres, é que todas deveriam se conhecer mais e se amar mais, porque ninguém fará isso por vocês. Imponham mais o respeito com atitudes e não com discussões e grosserias. Mostrem quem vocês são! Empoderadas! Estudem, se profissionalizem, não dependam de ninguém, uma profissão te faz livre de todo e qualquer tipo de submissão. E não existe mulher fraca, existe mulher que não conhece seu poder. Façam tudo com amor! Deixo a vocês uma frase que é e sempre será o meu marco: “EU AMO A MULHER QUE ME TORNEI”. A frase mais completa da minha vida!

Leia a entrevista de Elsa Almeida, capa da Revista Top Loba de Dezembro de 2020.

É só clicar na capa

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