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"Meu nome é Maria Zilda Vaz, tenho 53 anos, três filhos, duas mulheres e um homem, e tenho cinco lindos netinhos: A Mariana, a Maria Paula, o Pedro Josué, a Maria Fernanda e a Yara. E tenho também uma linda neta do coração a Ana Luíza. 


Sou Pedagoga pela Universidade Federal do Tocantins, pós-graduada em Educação Inclusiva e Orientação Educacional. Sou servidora pública da Secretaria de Educação do Estado de Goiás e sou Analista de Políticas de Assistência social, na Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de Goiás, atualmente resido e trabalho na cidade de Formosa- GO.   

Sou filha mais velha de um casal de camponeses, perdi o meu pai aos dois anos de idade, cresci sem a presença masculina em casa, com dificuldades e limitações e uma educação voltada para o modelo patriarcal, onde as meninas casavam cedo e deviam obediência incondicional aos esposos.


Então casei aos 18 anos, com um homem viúvo, 13 anos mais velho que eu. Pouco experiente eu me encantei pelos cuidados do meu então esposo, encontrei uma figura paterna e não revidei aos maus tratos que no início eram leves e que foram acentuando com o passar do tempo. Fiquei casada por 16 anos, com histórico recorrente de agressão física, tortura psicológica e violação de direitos. Por várias vezes meus filhos presenciaram cenas de violência doméstica e vivíamos sobre constantes ameaças.

Eu dependia financeiramente do meu marido. Com três crianças eu não podia trabalhar fora de casa e também ainda não tinha uma formação acadêmica. Vivi anos depressiva, descuidei da saúde, fiquei obesa e perdi o desejo de viver. Minha rotina se resumia em cuidar da casa e dos filhos. Cheguei a planejar o suicídio várias vezes e não tive coragem por pensar que meus filhos iam ficar órfãos. 


Após quinze anos nesse flagelo eu decidi trabalhar, estudar e, um ano depois eu já tinha segurança para enfrentar uma separação e resolvi me divorciar. Saí de casa deixando tudo. Levei apenas meus filhos e nossas roupas. Fomos morar em um casebre, que quando chovia molhava tudo... que tristeza! Quantas noites tivemos que dormir emboladinhos em uma salinha, a única que ficava seca! Enquanto chovia lá fora eu encharcava o travesseiro com lágrimas de profunda tristeza e reafirmava minha fé em Deus de conseguir mudar aquele cenário.

Mas, mesmo com tudo isso, consegui viver momentos típicos de adolescente. Voltei a estudar, namorar, a não ligar muito para as falácias... passei em concursos, comecei a estabilizar financeiramente e, mais importante, voltei a sonhar e a acreditar no meu potencial! Foram os anos dourados da minha vida! 

 

Idealizei um romance, um homem inteligente, culto, educado, não precisava ser bonito! E foi exatamente assim! Conheci um rapaz com todas as características que eu sonhei, namoramos alguns anos e decidimos ficar juntos. Confesso que me permiti viver um conto de fadas! Muito companheirismo, compreensão, viagens... com o simples fato de sua companhia, eu não precisava de mais nada. 


Planejávamos envelhecer juntos. Parecia sonho mesmo. Porém, eu deixei cultivar a cultura de que eu tinha que ceder sempre, que eu não era uma pessoa ideal, que eu precisava mudar, melhorar nisso, naquilo, e mais um pouco. Em todas as situações eu precisava me adequar!

 

As frases recorrentes que ele reportava a mim: “você precisa evoluir”, “você é chata”, “você precisa mudar”, “por isso ninguém te suporta”, “ninguém gosta de você”, “se você continuar assim vai acabar ficando sozinha”, entre outras! 


Um belo dia conversando como uma colega de trabalho ela me advertiu com as seguintes frases: "Por que você vive dizendo que você é chata?" "Por que as vezes eu te vejo triste?" Eu fiquei confusa! Me coloquei a refletir... então eu não sou..., eu estou triste? Eu não sou feliz?


Mergulhei novamente no meu Eu e descobri que a minha essência estava se perdendo! Eu amava tanto a outra pessoa e estava deixando de me amar! Eu estava me deixando ir embora! Li alguns livros, gostaria de citar a obra “Basta Pensar Diferente” da Dra. Sarah Edelma, fiz algumas análises, me encorajei e passei a mostrar que Eu sou! E, se eu não sou compreendida, não sou valorizada e estimada do meu jeito, não sou eu quem preciso mudar!

E isso valia pra filhos, amigos, namorados, companheiros e principalmente para mim mesma!


A partir do momento que eu deixei de ceder a todos os caprichos e vontades do meu companheiro, ele relatou que eu “parei de evoluir” e ele perdeu a admiração por mim. Porque evoluir na concepção dele incluía na época, compartilhar experiências e vivencias sexuais com outras pessoas além da gente! 

 

Foi então que o meu relacionamento de aproximadamente dez anos acabou! Numa manhã de domingo do mês de abril de 2018, ele chegou para mim e falou que estava gostando de sua professora de Yoga, que me achava a mulher mais fantástica do mundo, mas queria viver outras experiências! Meu mundo desabou! Eu não podia acreditar! Nossos planos, nossa vida, tudo era compartilhado, tudo parecia perfeito! Mas ele foi embora naquele dia mesmo!
Eu fiquei destruída!

 

Na semana seguinte eu recebi umas fotografias de um número desconhecido, onde ele e sua então professora, brincavam em uma chácara e faziam fotos de orgia a dois. Achei desnecessário mas interpretei cada cena enquanto me despedaçava inteira. Passei a me comportar como uma idiota, acompanhei as redes sociais de ambos e certificava de que eles estavam muito felizes. Até que entendi que estava tudo certo. Que era necessário me reorganizar dentro de uma nova realidade. Eu havia perdido! Será? 

 

Me permiti viver uns vinte dias de luto. Fiz uma releitura da minha vida, tomei novamente as rédeas e tracei novas metas! Afinal, era a primeira vez que eu estava solteira, com filhos adultos e independentes, com situação econômica bem resolvida, linda, rsrs, então o que fazer? A primeira coisa foi realizar um sonho antigo de ir com minha filha mais nova para o Rio de Janeiro. Dei de presente de aniversário para ela uma semana no Rio, com mamãe junto! Foi maravilhoso, nunca havíamos viajado só nós duas. Isso foi em minhas férias de julho.

Chegamos do Rio e no dia seguinte fui com uma amiga fazer um tour em cidades históricas de Goiás que não conhecíamos. Foi fantástico, sair à noite, barzinhos, festas, gente bonita! Foi então que me dei conta que nunca havia feito isso! Nos divertimos muito também. Eu não sabia que era possível se alegrar sem ter um namorado, um companheiro. Fiquei encantada em receber alguns "chavecos", embora não sabia como retribuir, como me comportar!

Passado o mês de férias e de volta a rotina, veio a solidão! Os questionamentos, a inquietação de pensar que ninguém mais se interessaria por mim. Eu também não me interessava por ninguém. Descobri que eu não tinha amigos para sair, me vi perdida e tive que organizar essa parte também. Fiquei mais sociável, mais comunicativa, mais alegre e mais bonita!

 

Nas féria de janeiro de 2019 fui com uma colega de trabalho para Recife. Ficamos uma semana curtindo praias durante o dia e balada a noite! Minha autoestima estava em perfeita harmonia! A primeira noite que saímos em Recife, estávamos curtindo um showzinho de MPB no centro histórico da cidade, minha amiga pediu informações a um homem simpático da mesa ao lado, eles conversaram um pouco e para minha surpresa ele falou: “me apresenta sua amiga afro”, eu explodi na hora! Confesso que vivi dias de adolescente! Nem lembrava daquela mulher casada, que jurava que era feliz... aquelas férias de janeiro dariam um romance, uma novela sem final porque eu ainda vivo a repensar como é possível mudanças acontecerem. É preciso ter coragem, estar aberto e minimamente planejar a vida e viver!

 

Voltando a rotina novamente, eu senti necessidade de interagir com outras mulheres com vivencias parecidas. Eu queria e ainda quero conseguir uma porção de coisas ”sozinha”! Quero viajar, ter coragem de sair, sentar e tomar um drink sozinha, não me importar com os olhares, enfim... eu pensava muito que deveria ter mais mulheres na mesma situação e ficava olhando a internet noite a dentro! Numa dessas buscas eu vi um post do Movimento Top Loba, analisei, preenchi os dados e enviei sem muita perspectiva porque já havia feito isso em outros sites.

Para minha surpresa, no dia seguinte eu já tinha a resposta com o contato da Angel Mancio, que foi super solícita em tudo e me inspirou muita confiança. Fiquei a pensar e decidir fazer parte! Isso já foi em setembro de 2019, timidamente eu fui me envolvendo, interagindo e amando! Dois meses depois eu já participei do Baile de Máscaras e fui coroada de vez como integrante. Foi o melhor achado nesse tempo todo. Como diria a minha avó “eu encontrei minha turma”!
 

Dentre muitas atividades de entretenimento, interação e aprendizagem que o Movimento Top Loba oferece, para mim o mais importante foi a aceitação da minha imagem. Sempre me vi feia, não gostava de fotografias e até hoje tenho dificuldade em aceitar elogios. Quando alguém fala que sou bonita eu prontamente respondo: “sou super legal, bonita não!” Estou assimilando a ideia de que sou linda! As aulas de fotografias no Clube Top Loba, têm me proporcionado empoderamento e autoconfiança! 

Se eu vou ter um novo amor, vou sim! Mas vai ter que ser muito especial porque eu sou espetacular! O meu maior sonho é que todas as mulheres se amem, descubram seu potencial, sua capacidade criadora, só assim teremos relacionamentos verdadeiramente saudáveis, primeiro conosco porque o outro será sempre o outro! Uma frase que construí:

 

“Experimente um caso de autoamor e verás que não tem fim!”

Maria Zilda Vaz