"Fui vítima de uma pessoa acima de suspeitas!"

Meu nome é Vitória Dias, tenho 57 anos e hoje estou aqui para contar a minha história, de sofrimento, de dor, de vergonha mas também de superação, de tirar forças da fraqueza e com fé no coração prosseguir de cabeça erguida.

Há algum tempo atrás eu fui diagnosticada com depressão crônica (que mais tarde se agravou com a morte de minha mãe). Em 2011, passei a tomar remédios fortes para controlar a doença. E estes remédios em vários momentos me faziam "apagar". Quantas vezes passei direto do ponto de ônibus onde ia saltar, pois era um sono incontrolável, sem falar de outros efeitos colaterais. Aconselhada pelo médico a fazer exercícios físicos, pois traria benefícios para a minha saúde física e mental, entrei para uma academia próxima à minha residência. 

Existe no bairro onde moro, um homem, amigo da minha família há mais de 30 anos, uma pessoa de total "confiança", trabalhador, viúvo e pai de família. Que assim como eu, ama os animais. Ou seja, uma pessoa acima de qualquer suspeita. Quando eu passava para ir à academia, às vezes ele me dava carona. Eu aceitava, afinal uma amizade há mais de 30 anos, eu não tinha motivos para não aceitar. Eu nem imaginava que estava sendo empurrada para um abismo, para uma cilada, onde as cicatrizes do corpo fecharam mas as da alma ficariam marcadas para sempre. Certa vez, em uma destas caronas, devido ao efeito dos remédios, eu simplesmente "apaguei" dentro do carro. Fui acordar dentro de um motel sendo estuprada por este "amigo" da família.  Eu estava tão assustada, fragilizada que só conseguia chorar e implorar que me deixasse em paz. Na verdade, eu nem sabia que motel era aquele nem onde ficava. Me lembro de ficar acuada num canto da parede chorando, machucada e a mercê do meu algoz. Não tive forças sequer para gritar e pedir socorro. 

Ele abusou de uma pessoa doente e dopada por remédios, que assim como minha família, confiava nele. Depois, ele me levou até uma rua próxima de minha casa e me largou lá, como quem larga um saco de lixo. Fui correndo para casa aos prantos. Me lembro que no caminho encontrei um vizinho que perguntou o que aconteceu, pois meu rosto estava machucado e eu chorava muito. Nem consegui responder, tudo o que eu queria era chegar em casa. Na época ainda não tinha a Lei do Minuto Seguinte.  Quem prestasse queixa de estupro, tinha que ir fazer exame de corpo de delito no Centro da Cidade. E eu estava devastada por dentro e machucada por fora. Me sentia suja e ficava o tempo todo tomando banho. Me lavando. Me sentia a pior das criaturas.

Quanto mais eu me banhava, mais suja, indigna e humilhada eu me sentia. Ele continuou (e continua) com a falsa amizade com minha família, como se nada tivesse acontecido. Eu não tinha condições psicológicas para nada. Portanto não dei queixa dele. Felizmente não contraí nenhuma doença sexualmente transmissível. Só quem ficou sabendo da história foi um amigo meu, que indignado foi tirar satisfações com ele. Ele mentiu que tinha um relacionamento comigo e o sexo foi consensual. Meu amigo disse que era mentira dele. Ele então apelou. Falou que a culpa era minha que ia para a academia com legging e isto era provocante. Ou seja, de vítima eu passei a ser ré. Depois de quase partir para as vias de fato com este homem, meu amigo foi embora revoltado com tanta frieza. Passei muito tempo atormentada com o que aconteceu. Quando eu via na TV algum caso de estupro, eu chorava compulsivamente. E quando eu passava por ele na rua (sim, infelizmente ele continua morando no mesmo bairro que eu), eu saía correndo feito uma louca e chorando muito. 

Não foi fácil, mas tive que tirar forças da fraqueza e dar a volta por cima. Hoje em dia, quando passo por ele na rua, passo de cabeça erguida. Quem tem que ter vergonha do que fez é ele, abusar de uma pessoa doente e desacordada que confiava nele, e não eu! Mulher é para ser respeitada, não importa se ela esteja de vestido longo ou roupa de academia. Aquela velha história "prendam suas cabritas que meu bode está solto" não cola mais. As mães tem que ensinar a seus filhos, a não fazer com a filha dos outros, o que não querem que façam com suas filhas, irmãs e mãe.