Cada vez mais, as mulheres buscam investir em seus próprios negócios, primeiro pelo empoderamento feminino que fez despertar a necessidade de independência financeira, segundo pela falta de empregos e oportunidades de trabalho com salários dignos. A idéia de criar esta coluna Vivendo e Empreendendo, foi justamente para inspirar outras mulheres a ousarem e saírem da zona de conforto. E claro, valorizar o trabalho de todas aquelas que sempre me incentivaram e estiveram ao meu lado em minha caminhada com o Movimento Top Loba. Eu não poderia deixar de fora, a Joyce Oliva, que teve um papel importante na trajetória de construção do Clube Top Loba 5 Estrelas, me indicando meios e recursos para que eu conseguisse capitalizar meu negócio. Por ter conhecido um pouco melhor sua história, e saber o quanto isso pode ser proveitoso aos leitores, fiz o convite a ela, e aqui está a entrevista exclusiva à Revista Top Loba deste mês de novembro/19.

Angel Mancio 

 

1- Qual é o seu negócio e por que você escolheu empreender neste ramo?


Na verdade não escolhi, meio que aconteceu por acaso. Eu morava em São Paulo e quando me casei, vim morar no Guarujá. Como a vida de sobe e desce de fretado era muito cansativa, fiz um acordo para sair da empresa e queria achar algo mais perto da minha casa.
A oportunidade de empreender neste ramo, surgiu quando o dono do Salão que eu frequentava no Guarujá (Adão Hairdresser’s), me ofereceu um espaço dentro do Salão dele e me sugeriu montar uma loja de produtos importados, já que no meu trabalho anterior eu viajava bastante para os Estados Unidos e sempre trazia muitas encomendas que as minhas amigas, inclusive a esposa dele, me pediam. Assim nasceu a Luckenjoy Imports.

2- Quando você descobriu que tinha sangue de empreendedora nas veias?


Eu nasci na Bahia e me mudei para São Paulo ainda criança com a minha família. Sou a mais velha de 4 irmãos. Cresci na periferia de São Paulo. Estudei a vida inteira em escola pública e tive uma infância muito humilde. Apenas meu pai trabalhava para sustentar a todos e ele não tinha um grande salário por ter estudado apenas até a 4º série do ensino fundamental. Nossa primeira casa própria foi num bairro recém nascido. Fomos um dos primeiros a morar lá, sem piso, sem banheiro, sem reboco nas paredes, mas pelo menos tinha terra, muita terra. Os terrenos vizinhos ainda não haviam sido vendidos e isso nos dava bastante espaço. Meus pais plantavam de tudo em volta da nossa casa e tinha um pé de chuchu que era gigante. Quando eu tinha 14 anos um tio meu, veio da Bahia para morar conosco e tentar a vida em São Paulo. Ele estava desempregado e eu na adolescência, querendo ter meu próprio dinheiro para comprar coisas pessoais, sem ter que depender do meu pai. Tive a idéia de vender chuchu na feira do bairro, junto com meu tio. Acordávamos bem cedo no sábado, colhíamos todos os chuchus, colocávamos no carrinho de mão e íamos vender. Tínhamos uma estratégia - passávamos por todas as barracas observando os preços para praticarmos o valor mais competitivo possível. Foi um sucesso, sempre voltávamos com o carrinho vazio antes de acabar a feira. A partir daí vi a importância der ter meu próprio dinheiro através do meu trabalho e não parei mais.

3- Você fez faculdade? Se sim, tem a ver com seu negócio de hoje?


Fazer faculdade era um sonho já que ninguém na minha família tinha formação universitária,
estudei muito para passar em uma que fosse pública, pois meus pais não teriam condições de
me custear. Passei na Unicamp para Letras mas para eu estudar lá, tinham os custos de moradia, alimentação,e outras coisas, já que eu teria que morar em Campinas, não pude assumir a vaga.


Na mesma época, consegui meu primeiro emprego num supermercado como Operadora de Caixa. Fiz as contas e vi que meu salário dava para pagar 70% da mensalidade de um curso relativamente novo de Turismo. Fiz a matrícula e o restante do valor da mensalidade eu conseguia vendendo catálogos (Avon, Natura, Hermes e etc) para minhas amigas do supermercado. Me formei em Turismo com ênfase em Marketing e comecei a trabalhar na aviação.


Trabalhei por 10 anos, primeiro na falida VASP e depois na TAM, hoje Latam. Na TAM, fiz uma MBA in Company pela FIPE/USP de Gestão de Negócios. Então sim, toda a minha formação me desenvolveu muito profissionalmente e me dá muito conteúdo para meu atual negócio.

4- Em algum momento da sua vida, você se sentiu perdida sobre seu futuro?


Sim, claro. Hoje vejo que esses momentos são os de maior aprendizado e desenvolvimento. Só
quando estamos fora da nossa zona de conforto e em situações difíceis, é que percebemos o quão forte podemos ser e quão longe podemos ir.

5- Você já pensou em desistir do seu negócio atual?


Pensei sim, desde o começo inclusive. Quando decidi abrir a loja em 2011 peguei o dinheiro da minha rescisão na TAM e partimos eu, meu marido e minha irmã para Miami, para montar o estoque e tentar achar fornecedores. Para meu desespero as malas foram extraviadas e perdi todo o dinheiro investido. A loja já tinha data de inauguração e alguns itens já eram encomendas. Sem opção, fiz o primeiro dos meus empréstimos no banco e voltei para Miami 2 semanas depois para recomprar tudo. Dessa vez deu certo e inauguramos a loja. Três dias após a inauguração, a loja foi assaltada, levaram muita coisa. Para minha sorte a Polícia agiu rápido e recuperou grande parte dos meus produtos. Depois desse susto, a loja só prosperou. Fiz outros empréstimos para capital de giro e em 4 anos consegui pagar todos eles. Foi na mesma época, final de 2015, que recebi o processo judicial sobre o extravio das malas.


Como esse dinheiro e a venda de um carro, deixei a loja com uma amiga e resolvi tirar um ano
sabático. Em 2016 fui fazer um intercâmbio no Canadá com meu marido. Novamente para estudar, dessa vez, inglês. O Brasil entrou em recessão e a loja também. Isso, somado a minha ausência a frente dos negócios, fez o movimento e o caixa da loja caírem. Voltei do Canadá com o país em crise, sem trabalho, sem dinheiro, com empréstimos no banco novamente e na estaca zero. Não sabia se tentava recuperar a loja, se voltava para o mercado de trabalho ou se voltava para tentar a vida no Canadá.


Foi então que fui convidada a participar do grupo de empreendedoras (o B2Mamy - https://www.b2mamy.com.br/), ganhei um sorteio de um Coach empresarial e descobri que
empreender, não era uma opção é sim uma vocação. Decidi recuperar a loja. Investi tempo e estudo nas redes sociais e foquei no site.


Até então, eu vendia Perfumes, Cosméticos e Maquiagem, como muitas das mulheres também são mães, notei o interesse por itens infantis, passei a trabalhar com itens para crianças também. Tudo isso me trouxe de volta ao mercado. Hoje os empréstimos estão quitados mais uma vez e somos a loja de importados mais conhecida no Guarujá.

6- Qual é sua maior motivação para você continuar acreditando no seu empreendimento atual?


Empreender é solitário, árduo, trabalhoso, cheio de mudanças o tempo todo, mas justamente tudo isso é que é o meu estímulo, sinto que quanto mais me envolvo e dedico tempo e estudo no meu negócio, mais retorno eu tenho. Vejo empreender como uma atividade cíclica. É um eterno fluxo de retorno. Tipo um movimento circular em contínuo desenvolvimento. O que funcionava ontem, hoje já não funciona mais. Não é algo estagnado, é algo em constante evolução, que te força como indivíduo a buscar sempre por coisas novas. Isso definitivamente me motiva. Trabalhos monótonos, repetitivos, estáticos, provocam o efeito oposto em mim, me
desmotivam.

7- Quais são os seus projetos futuros?


O próximo passo é modernizar a loja. Dessa vez com um projeto de uma arquiteta, mudar layout, comunicação visual e separar as atividades para trabalhar com nichos.


Está nascendo uma nova Luckenjoy que será voltada exclusivamente para itens infantis. A Luckenjoy Imports continua com Perfumes, Cosméticos e Maquiagens. Quanto ao estoque, hoje temos importadores maiores que já nos fornecem diretamente aqui no Brasil. Temos também endereços na Califórnia, Nova York e Orlando, são redirecionadores que nos enviam os produtos menores e encomendas específicas. Por fim, estamos fechando contrato para começar a receber importados também por container de navio pelo Porto de Santos.

8- Qual é o fato sobre você que te causa maior orgulho?


Sem dúvidas os estudos.
Estudar mudou minha vida, minha realidade e meus horizontes. Acredito que o meu crescimento profissional e as oportunidades que tive na vida foram porque tive o ímpeto de querer crescer, aprender e mudar meu futuro sempre. No caminho tive mestres importantes que me fizeram acreditar que se é possível sonhar, é possível realizar.


Para estudar e ter um aprendizado contínuo é necessário ter humildade para sabermos que sempre existe espaço para aprender mais e mais. Por mais que você saiba muito sobre determinado assunto, sempre vai ter alguém que sabe mais do que você. Temos que ter a mente aberta. Nunca saberemos de tudo. Uma frase que gosto muito é: Mude suas folhas, mas mantenha suas raízes. É a máxima de que assim como as àrvores que mudam de folhas em cada
estação do ano, nós também devemos estar em constante mudança e evolução.

9- Você teve algum outro negócio, antes do atual?

Tive uma agência de viagens júnior na época da faculdade. Organizava excursões de ônibus para Florianópolis, Curitiba, Rio de Janeiro e várias cidades do interior de São Paulo, além de passeios técnicos da Faculdade de Turismo. Quando entrei na aviação, saí da agência.

10- Deixe uma mensagem para as leitoras que se sentem inseguras em montar um negócio próprio.


Empreender não é um mar de rosas. É uma montanha russa de emoções. É quando superar um desafio, esperar os próximos de cabeça erguida. Não importa quantas vezes você vai cair. O que conta é quantas vezes você consegue se levantar. Acredito que o sucesso é definido por aquele que consegue continuar de onde os demais desistiram.