Diário de Mariza

Conheça a história real de Mariza Paiva, uma infância e juventude marcadas por perseguições, violência doméstica e assédio

Prazer, me chamo Mariza, Mariza Paiva Martins Correa, tenho cinquenta e seis anos, sou Paranaense, de Paranapoema, possuo sangue Cascavelense, pois tive infância celada pelo Município de Cascavel, graças aos meus pais, nos mudamos para tal Município por volta dos meus quatro anos de idade. Gostaria de abrir o meu diário e compartilhar belas histórias de minha infância, adolescência e da vida, mas não foi assim. Sou a terceira filha de quatro irmãos, cresci numa família tradicional conservadora com evidentes traços patriarcais e com ensinamentos e preceitos voltados ao machismo e preconceito, em que não éramos doutrinados pela compreensão e sim por subordinação e domesticação. Vivi sobre trações de
acorrentamento não só físico, mas de alma.


Quando criança, não despertava vontade de ir à escola. Considerava-me uma menina com beleza inferior à das outras meninas de minha época. Eu era gordinha, estrábica e possuía grande dificuldade em enxergar. Os meus colegas de turma utilizavam adjetivos horrendos e eu era obrigada a conviver com bullying naquele ambiente, fatos que me deixavam descontente e desonrada todos os dias, porém, mesmo diante de todo preconceito vivido eu frequentava às aulas.


Para mim o conceito de família diferenciava-se das características de amor, afeto, cuidado e carinho. Afim de suprir toda as blandícias, meu pai me mimava com bens materiais, eram roupas, vestidos, sapatos e tudo que eu demonstrava querer, ele sentia prazer em me presentear. E eu, na inocência de criança, sem entender o porquê me proporcionava tantos mimos, me aproveitava da situação mesmo sabendo que não era feito o mesmo com os outros filhos. Assim, avivavam sentimentos de fúria, de inveja, de ciúmes e de indiferença dos meus irmãos, mais precisamente das minhas duas irmãs. Contudo, com o passar do tempo, fui entender que o carinho exacerbado do meu pai era permeado com situações e desejos eróticos.


Meus genitores não ficavam muito em casa, meu pai era proprietário de um comércio, na época era conhecido como armazém e minha mãe além de cuidar do trabalho de casa, trabalhava em um hospital na área de serviços gerais. A minha visão sobre eles era de pessoas rudes, egoístas e que não tinham amor e caridade ao próximo. Meu pai tinha um ego de superioridade aos demais e minha mãe compartilhava de tal sentimento. Mesmo com tamanha característica de indiferença para comigo, eu sentia um carinho especial por minha mãe e a defendia com afinco.


Ainda que não concordando com as frequentes manifestações de ignorância daquele meio, era o ciclo familiar em que fui crescendo. Eu recebia título de menina levada e danada, por ter atitudes contrárias às que eles acreditavam, eu via em mim uma grande necessidade em ajudar pessoas precisadas. E sempre que dava eu realizava algum ato de colaboração e quando minhas atitudes eram descobertas, aumentava a fúria de minha família. Foi onde comecei a viver atribulações domésticas Minha adolescência foi marcada por episódios de acorrentamento por parte do meu pai, por vezes me deixava o dia inteiro isolada em casa, talvez por fatos de rebeldia típicos da minha idade. Por inúmeras vezes tive os pés agrilhoados por correntes e minha liberdade privada. Ficava o dia inteiro acorrentada e ninguém tinha interesse em me socorrer, meus irmãos comemoravam tal situação e utilizavam de palavras movidas ao ódio para comigo, minha mãe também não se manifestava ao meu favor, ela não tinha voz sobre nada naquele ambiente, apenas concordava e firmava sua cabeça diante meu pai, todos achavam correto tal situação. Eu não
entendia toda aquela repulsão sobre mim, até hoje não consigo entender direito, e em meus pensamentos, nos momentos de atribulações, eu não queria mais fazer parte daquela parentela, eu queria desaparecer.


Assim fui crescendo, uma menina desolada, aborrecida em um ambiente familiar voltado ao rancor, à violência, à maldade e ao ódio. Minhas irmãs faziam de tudo para me deixar mais triste e com autoestima mais abalada. Eu tentava uma aproximação, mas sempre fui frustrada. Me recordo de algumas vezes em que elas queriam ir à festinhas externas e eu queria que me levassem, meu pai as obrigava a isso, no caminho para o local eu era humilhada, recebia beliscões, puxões de cabelo, mordidas, empurrões, enfim, eu era totalmente maltratada só por estar ali. Eu contava tudo que acontecia ao meu pai e ele as espancava, assim alimentava o ódio delas e a raiva que elas sentiam por mim. 

Nessa configuração de família crescia comigo um sentimento de repulsa e vingança. Desta forma, com impulso de rebeldia típico da adolescência e após sofrer tentativa de ato libidinoso oriunda de meu pai, decidi fugir de casa. Peguei uns trocados sem que minha mãe percebesse e de ônibus fui para cidade vizinha. Me abriguei em uma pensão cuja proprietária era uma simpática senhora que ao saber por mim de toda história me acolheu como filha. Eu pensava que havia conseguido a minha carta de alforria, mas minha felicidade não passou de um mês. O meu pai descobriu onde eu estava e me levou embora a força. Deixei tudo para trás, meu sonho de liberdade, meu sossego e minha vontade de viver. Voltei para vida que levava antes, porém, com episódios mais acentuados de tortura, não apenas física como também psicológica, vindas não só dos meus pais, mas também das minhas irmãs que reportavam a mim como prostituta. Continuaram-se as ações de acorrentamento e eu era vista como um “lixo”.


A vida seguia e eu descontente continuei a planejar outra fuga. Em outro momento convidei um jovem que conheci em um baile para fugir comigo e passamos a noite juntos, e como em uma cena de novela dormimos em um quarto de pensão sem que acontecesse nenhum ato sexual. Cheguei para os meus pais no dia seguinte e falei que deveria me casar e relatei todo acontecido na esperança de que eles me obrigassem a casar com o jovem a exemplo de outras práticas daquele contexto. Para minha surpresa eles me levaram a fazer um exame ginecológico e constataram que nada havia acontecido, portanto, eu não necessitava casar, pois continuava virgem.


E nesse movimento de fuga e captura, potencializava dentro de mim um sentimento de repulsa em relação a toda minha família, principalmente em relação ao meu pai. Por parte dele ia solidificando o desejo de possessividade, pertencimento e vingança. Tanto que todas as minhas tentativas de relacionamentos eram sempre frustradas após o primeiro encontro do meu parceiro com meu pai. Eu não entendia o porquê de tal atitude. Mais tarde eu descobri que meu pai fazia meus namorados ou companheiros, sentirem raiva de mim, falando muitos absurdos relativo à moral, a falta de valores, a meu respeito.

Como resultado daquela vida familiar e afetiva desorganizada, engravidei e tive minha primeira filha na casa dos meus pais. Mesmo ignorando a presença da criança, meu pai foi ao fórum e conseguiu a guarda da minha filha alegando que eu não tinha condições para cria-la. Tive minha alma dilacerada ao assistir tamanha barbárie, e novamente não fiz nada. Recordo que foi no dia do meu aniversário de 18 anos, quando minha filha completava seu primeiro aninho de vida e como presente eu recebi a obrigação de passa-la para o meu pai como se estivesse fazendo um tratado de negócio. Paralelo a isso eu conheci um rapaz trabalhador, honesto e fui morar com ele numa fazenda onde ele trabalhava, posteriormente eu consegui levar minha filha para passar os finais de semana comigo. Tudo ia muito bem até o momento que meu pai passou a frequentar minha casa e conviver com meu marido..., vieram as discórdias, desconfianças, brigas, ausência de meu cônjuge, uma segunda gravidez seguida de separação e meu retorno à casa dos meus pais. A saga continuava.


Imaginei que estaria segura e confortável no seio da minha família! Para meu desespero ouvi uma conversa dos meus pais onde meu pai ordenou que não queria outra criança em casa. Foi então que ele entregou minha filha com quatro dias de vida para uma família. Nós brigamos, eu fui espancada e acorrentada outra vez! O barulho seco daquelas correntes, somado à fúria do meu pai ficaram registrados em minha alma como um ícone potencializador da profunda tristeza de uma mãe que teve seu rebento arrancado dos braços, não da vida! O tempo passava e eu ia tentando encontra sentido para viver. Houve ate mesmo uma tentativa de reaproximação desse companheiro, pai de minha segunda filha, convívio frustrado após uma armadilha feita por meu pai para acabar com tudo. Eu realmente não era capaz de entender porque aquele homem que se dizia meu pai só fazia inferno na minha vida!


Desencantada com tudo e numa tentativa de sobrevivência, decidi fugir para bem longe, queria até morrer se conseguisse! Sem rumo eu fui parar em Peixoto de Azevedo no estado de Mato Grosso, passei a viver em casas noturnas onde recebia moradia e alimento em troca de fazer os ofícios que o ambiente oferecia. Fiquei nessa vida por aproximadamente três anos, e conheci um homem que me ofereceu cuidados, prometeu uma vida adequada, com atenção, carinho e tudo mais. Porém não foi isso que recebi. Sofri violência física, psicológica, moral, enfim. Decidi voltar para casa dos meus pais (...), tinha esperança de reencontrar minha filha, mas ela havia sido entregue a uma família desconhecida por mim Tempos depois conheci um rapaz, me apaixonei, namoramos, engravidei tivemos um relacionamento amoroso, que tambem não durou muito fiquei com a saúde fragilizada e perdi o bebê. Cheguei a morar em um garimpo por um tempo, com um homem que me proporcionou a experiência de ser contagiada por malária por inúmeras vezes e ter a saúde debilitada. Nesse meio tempo encontrei um ex amor ficamos juntos por uma noite eu engravidei do meu terceiro filho que foi rejeitado pelo pai ao saber que eu estava grávida. Dessa vez eu tive que mentir no hospital para conseguir que fizessem o meu parto. Recordo que a equipe de saúde onde fiquei hospitalizada para ter o meu filho me doou umas roupinhas para o bebê porque eu não tinha nada. Saindo dali eu fui viver da boa vontade de pessoas da cidadezinha com uma criança nos braços e sem lugar para ficar, passei fome, frio, vergonha, desencanto... sim, apareceu um anjo, me acolheu, me abrigou por um tempo até que novamente procurei meus pais. E de novo o meu terceiro filho ficou sob a tutela de meus genitores e eu voltei para minha saga. Eu com todo histórico de flagelo era uma estranha. Já não cabia mais no “mundo” daqueles que eram minha família.

Que vida! Nem pensava muito mais não. Voltei para o garimpo e fui morar com um rapaz que usava e vendia drogas. Me embrenhei naquele mundo! Eu recebia sim umas migalhas de afeto e não passava fome e tinha esperança de ter uma casa uma família! Com esse não vingou. Nesse interim, conheci um moço que apesar de ser deficiente físico me tratou com um carinho inexplicável! nos casamos. Passamos por algumas dificuldades e como ele tinha a saúde fragiliza, faleceu muito rápido!

Tão logo fiquei viúva, a família dele me expulsou da casa em que vivíamos. A vida continuou de forma tortuosa. Voltei para casa de meus pais. Foi então que encontrei uma paixão antiga e me casei novamente acreditando que iria ser feliz de verdade. Viemos embora para São Paulo, vivíamos bem aqui. Compramos um casebre em bairro simples, meu marido não conseguia emprego, vivíamos com muito pouco.

Fui trabalhar como catadora de papelão, fiquei três anos trabalhando assim. Nas ruas, eu sempre encontrava comida, roupas, calçados e muitas coisas que poderiam ser reaproveitadas. Eu tambem passei a conhecer pessoas que eram bem necessitadas. Então eu higienizava os achados, organizava direitinho e fazia doações de tais itens para pessoas que necessitava. Dessa forma eu comecei a ficar conhecida pelo bairro, participei de associações, ganhava cestas básicas, comandava reuniões, e comecei a me achar importante naquele meio! Passei a ter figura de liderança e a convite, me candidatei a vereadora, fiquei como suplente. Minha vida começou a ter outro rumo. Fui presidente do bairro da cidade, da comissão de saúde local, entre outros cargos voltados a política pública. Consegui trazer várias benfeitorias para o bairro em que eu residia.


Com o passar dos anos, comprei outra casa melhor, a vida foi tomando um rumo diferente. Eu me tornando senhora da minha vida, sempre gostei de me apresentar, bem, me encher de cuidados. Sempre fui falante e vaidosa! Um belo dia ao levar minha bisneta, que mora comigo, para fazer um teste em uma agência de modelo, fui abordada pela proprietária da agência que me convidou a participar de um teste para fazer um comercial. Eu não entendi muito, mas aceitei. Fiz o tal teste, e para minha surpresa consegui um contrato! A partir do fato ocorrido, várias oportunidades surgiram. Fiz comerciais, propagandas, ganhei concursos e minha história mudou completamente.

Hoje posso dizer que a minha vida está pautada no aprendizado em que eu construí ao longo dos dias. Continuo morando em São Paulo, tenho uma casa simples, mas do jeito que eu sonhava, sou feliz e grata a Deus por toda experiencia e tenho um sonho de ter um canal de TV.!

 

Divido minha vida entre fotos, desfiles e convites sociais. Agora também sou do Clube Top Lobas, onde compartilho meus sonhos e minhas vivencias com mulheres também empoderadas de todo Brasil. Me tornei uma mulher vaidosa, com autoestima elevada, sou realizada, porém não sou ainda tão feliz no amor, mesmo morando com meu companheiro. Tenho planos de continuar com minha carreira, porque hoje tenho certeza de que nasci para isso. Sei que precisava aprender muito e acredito que minha missão está sendo cumprida porque eu tenho Deus no coração e nunca desacreditei disso. Logicamente se eu pudesse voltar no tempo, eu mudaria alguns comportamentos que tive quando eu era criança e quando jovem também. A maior lição que aprendi na vida foi de que tudo que eu fiz de bom eu estou colhendo, temos que tratar as pessoas como gostaríamos de ser tratados. Eu ainda não me considero uma mulher totalmente feliz porque me falta o amor, carinho e afeto tanto da família quanto do marido, mas acredito sempre que dias melhores virão.

Mariza Paiva