O Poder do Perdão

“O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária
para uma nova partida, para um reinício.” -
Martin Luther King

Ao longo de nossa trajetória de vida dificilmente não nos depararemos com situações de conflito com pessoas de nosso convívio ou mesmo desconhecidos. Certo é que, mais das vezes, haverá aborrecimentos, constrangimentos que impingirão máculas em nosso ânimo, em nossa alma, pensamentos recorrentes e sentimentos de rancor contra àqueles que entendemos que nos agrediram.

O conflito faz parte da condição humana, do histórico das diversas sociedades e, por consequência, a dor decorrente que altera a paz, desarmoniza e muitas vezes traz doenças desencadeadas pela somatização desses rancores. Enfim, todos, de certa forma, possuem uma cota de arrependimento em relação a algum fato ou ressentimento junto a alguém.

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Inicialmente, é importante se estabelecer que o perdão é uma virtude moral, na qual uma pessoa que foi injustamente tratada, tenta ser complacente com relação a quem lhe destratou, tentando não fazer mal a quem a feriu, porém, isso não significa abandonar a busca pela justiça ou mesmo esquecer o que ocorreu.

É interessante ressaltar que a Psicologia se debruça sobre o estudo dos conflitos e transtornos psicológicos, porém, sob uma vertente positiva, também estuda o poder libertador e sanador do perdão, bem ainda a forma como garantir meios saudáveis de convívio pacífico.

Existem estudos científicos sobre o que é o perdão, como realizá-lo, sobre o que é necessário para o restabelecimento do equilíbrio emocional e, por conseguinte, o bem estar físico, posto que, o que está na mente, quase sempre repercute no corpo.

O Dr. Robert Enright, da Universidade de Wisconsin e fundador do International Forgiveness Institute (Instituto Internacional do Perdão), é especialista no estudo da Psicologia do Perdão, e se debruça há mais de três décadas sobre o tema, tecendo algumas conclusões que são interessantes para entendermos melhor a dinâmica do efeito terapêutico dessa virtude.

Destaca que existem muitos estudos que mostram que a elaboração do perdão relaciona-se estreitamente com a redução da depressão, da ansiedade e de outros transtornos que interferem no equilíbrio psíquico. Tais evidências partem da consideração de que o indivíduo que se prende a recordações negativas, permeadas por ressentimentos e até mesmo ódio em relação a uma pessoa ou evento passado, desenvolve estresse crônico, fica se nutrindo de emoções tóxicas que, se não consideradas, se estabelecem e tornam-se mais rígidas e difíceis de tratar.

Para obter melhor qualidade de vida é preciso que o indivíduo desenvolva sua resiliência que é a capacidade de lidar com os problemas, adaptar-se a mudanças, resistindo à pressão de situações adversas e voltando ao seu estado de equilíbrio. Dentro desse movimento, exercitar o perdão é algo que pode restabelecer essa paz tão desejada, entendendo-se que perdoar não significa dizer que o que ocorreu, ou quem lhe ofendeu, deva ser esquecido ou mesmo que tenha sido benéfico para si, se na realidade não foi.

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Dr. Robert Enright enfatiza que, após a pessoa entender o que é o perdão, deve-se tentar que a mesma enxergue o valor inerente ao outro, mesmo tendo ele lhe causado a mágoa. Assim, quando o ofendido começa a ver o ofensor através de uma perspectiva mais ampla, percebendo alguma atitude positiva com relação a este, pode exercitar a empatia e a compaixão, com isso, o seu nível de estresse com relação ao evento tende a diminuir, bem ainda aumenta sua autoestima e a esperança no futuro.

Salienta-se, mais uma vez, que não é preciso sentir afeto pelo ofensor, mas mudar o ponto de vista para perceber que o perdão interessa mais ao ofendido, posto que, quem não ultrapassa essa etapa tende a ficar preso a uma cadeia de raiva, mágoa e sentimentos tóxicos. Enquanto que, quem tem condições de perdoar, consegue retomar o controle da vida e seguir adiante.

Outro pesquisador da área, o Prof. Everett Worthington, da Universidade de Virgínia, destaca que o perdão pode ser identificado quando o ofendido parou de querer o mal do outro, de planejar uma vingança, de achar que o outro é um ser vil, ou seja, quando ao lembrar da ofensa e do ofensor, já não sente raiva. Lembrando que a raiva é uma carga, um sentimento primário que sinaliza quando entendemos que estamos sendo abusados, injustiçados, porém, quando algo a estimula muito, essa passa a tomar conta dos pensamentos.

Nas próprias palavras do Prof. Everett Worthington: “A vingança certamente não traz cura alguma. Se reduzirmos a raiva, seremos mais capazes de manter a civilidade e ao mesmo tempo seguir comprometidos com nossa própria posição.”

O referido psicólogo, desenvolveu um sistema de cinco etapas, conhecido como método REACH, para chegar ao que chama perdão emocional, confira-as para, se for o caso, perdoar e alcançar resultados surpreendentes:

1. Visualize, respirando profundamente, o evento que lhe causou rancor.
2. Coloque-se no lugar da pessoa que o ofendeu. Qual motivo a teria levado a tomar a
atitude que você não consegue perdoar?
3. Lembre-se de uma situação na qual você agiu mal e foi perdoado. Como você se sentiu?
4. Comprometa-se publicamente a perdoar. Que amigo pode ser seu aliado nessa missão?
5. Não fique remoendo lembranças. Quando se dispuser a perdoar, perdoe de verdade e
não olhe para trás.

Verifica-se que a terapêutica envolve autoconhecimento e dedicação ao confrontamento de nossas próprias fragilidades e limites.

Todo esse embasamento deve ter por norte que o perdão não é um processo simples, exige que se coloque em jogo alguns recursos emocionais, dificilmente é produzido de forma espontânea, portanto, não há que se falar em fraqueza, mas é importante saber que o fator emocional atinge a saúde e o bem-estar e, assim, deve-se procurar alternativas de superar a mágoa como forma de zelar pelo amor próprio. É preciso entender que o perdão é uma alternativa válida, que talvez nunca possamos perdoar completamente a outra pessoa, dependendo do grau da ofensa, porém, o ressentimento pode ser melhor trabalhado para que se tenha uma melhor qualidade de vida.