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Como Acolher uma Mulher Com Relato de Estupro

Vamos falar de um assunto que ainda pode-se dizer que é tabu, mas somos mulheres e juntas sabemos que podemos mais, sem julgamento ou preconceito.

Volta e meia o assunto “estupro” volta às mídias e com muita força. Para mim que sou mulher, que tenho uma filha jovem, que tenho sobrinhas, amigas, cada vez que este assunto toca em meus ouvidos, eu também me sinto violentada, não sexualmente, mas pelo simples fato de ser mulher e pelo temor por todas as mulheres.

Cada vez que em meu consultório, escuto um relato de violência sexual, o meu coração se parte. Meus sentimentos se dividem, na dor daquela mulher, que passa ser também minha e em um desejo de conscientizar a todos que a mulher não tem culpa.

É assustador como os casos de violência sexual cresceram muito nos últimos anos e se baseia que somente 50% dos casos são denunciados.

Algumas relatam que mantiveram a violência em silêncio por vergonha, medo do abusador, medo de serem julgadas, relação de poder ou mesmo por não perceberem a gravidade da situação quando ela ocorreu.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, registrou recorde de violência sexual. Foram 66 mil vítimas de estupro no Brasil em 2019 com uma média de um estupro a cada 8 minutos.

O mais doloroso é saber, que muitas vezes as mulheres sofrem dupla violência: do ato em si e dos desamparos e aviltamentos jurídicos, que causam extremo sofrimento e outras dores emocionais, muitas vezes irreparáveis.

Você sabe o que é cultura do estupro?

O termo cultura do estupro vem sendo usado desde a década de 70 e se refere às formas usadas pela sociedade para responsabilizar as vítimas pelo abuso sexual sofrido, contribuindo para naturalizar um comportamento sexual violento por parte dos homens.

Estamos falando daquele "ninguém mandou vestir roupa tão curta", "se tivesse em casa, não teria acontecido", "do jeito que se comportava, estava pedindo", "não deveria sair sozinha", "se fosse santa, estaria na igreja", “por que foi andar no carro com ele?" dentre outros muitos exemplos que não deixam de alimentar uma sociedade machista e sem igualdade de direitos.

Nenhuma mulher merece ser violentada, independentemente se veste roupas longas ou curtas. As leis que envolvem nosso país precisam ser mais severas, proporcionando a estes agressores o fator medo e punição. O medo é regulador da sociedade, com a adoção de leis corretas, os delitos tendem a diminuir, pois os mesmos são covardes e temem a eficácia das leis.

Danos Emocionais

Um estupro não se trata somente da dor física, mas principalmente da emocional. A vítima de um crime de estupro pode sofrer diversos danos, alguns até irreversíveis.

Segue como exemplo alguns danos que as vítimas podem vir a sofrer após sofrerem abuso sexual:

  • Falta de concentração;

  • Transtornos de ansiedade;

  • Insônia;

  • Transtornos alimentares;

  • Perda de memória (o que possibilita não reviver o trauma);

  • Exclusão da vida social;

  • Exclusão da vida social;

  • Síndrome do Pânico;

  • Sentimento de culpa;

  • Medo;

  • Insegurança;

  • Falta de amor-próprio;

  • Baixa autoestima;

  • Possíveis tentativas de suicídio.

O Acolhimento

Como você pode agir se uma mulher confiar em você e relatar que foi violentada sexualmente?

Vai muito do vínculo que você já tem com essa pessoa.

A primeira coisa é se dispor a ouvir, mais do que fazer perguntas.

Se uma mulher decidir se abrir com você e relatar um caso de violência, o melhor é ouvi-la e tentar entender como ela prefere lidar com a situação. Se você puder, vale tentar ajudar. Quando uma mulher passou por uma situação de violência, é muita coisa que passa na cabeça, como muita raiva e dificuldade para lidar com toda a situação. Tente ajudá-la a organizar as ideias, mas sempre deixando na mão da pessoa a decisão de falar.

Quando ela está disposta a denunciar, você pode acompanhá-la até a delegacia, por exemplo. No entanto, a escolha final deve ser sempre da mulher. Às vezes, forçar a denunciar em um momento em que ela não consegue, mesmo querendo ajudar, pode fazer mal, a denúncia não é fácil.

Pode acontecer também, da vítima só conseguir se abrir anos depois do ocorrido. O importante é escutar, acolher, sem julgamento ou preconceito.

Se ela der abertura, você pode também incentivá-la a procurar ajuda psicológica profissional. Os índices de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de álcool, drogas, e dificuldade para ter relações sexuais são muito altos entre essas mulheres. Algumas já me relataram, que quando encontram um parceiro compreensivo, passam a conviver sem vida sexual, outras que por amar o parceiro e confiar nele, até tem vida sexual ativa, mas na maioria das vezes, após o ato sexual, se sentem destruídas, sujas e duplamente culpadas – por amar este homem e não conseguir se entregar completamente, depois por medo, por nojo e este nojo, na maioria das vezes é de si própria.

Ouvir o que a mulher tem a dizer, não duvidar dela e respeitar suas decisões são as atitudes mais eficazes para ajudar alguém que sofreu abuso sexual.

Lembre-se abuso não é apenas estupro, é preciso respeitar todos os relatos. Uma mulher pode se sentir muito ofendida de receber uma cantada, por exemplo. Existem vários níveis de violência, mas todos são violência.

É fundamental que a mulher que vivencia esta situação possa se sentir livre, sem preconceitos e julgamentos para fazer sua opção e sinta-se acolhida dentro do seu convívio familiar e da sociedade, qualquer que seja a sua escolha.

A Psicologia se faz em defesa de todas as mulheres. Eu termino este texto, te convidando para refletir: nós mulheres somos em número maior no mundo inteiro, somos seres sensíveis e inteligentes, somos fortes, guerreiras. Vamos nos unir e defender todas as mulheres!

E claro, o convite também fica a todos os homens inteligentes, mas somente aos inteligentes, que respeitam e sabem o valor que todas as mulheres têm.